Formoldeído

Sonhando esteticamente…

Eu sonho. Sim, eu sonho. Sonho e espero.
Eu vi o amor, esta noite. Um amor puro, sonhado… Algo que não existe. Ou não existia até então. Eu amo meu sonho.
Sonhei com um príncipe encantado e percebi que não tenho coração de pedra. Meus pulsos não são de gelo.
Eu sonhei. E porque eu sonho, eu não o sou.

E eu continuei sonhando, mesmo depois de acordar. Eu ainda podia sentir o toque, sentir o cheiro. Ainda podia…
Acariciei meu próprio corpo, sedento por um afago. Chorei, mas só por dentro.
Sentia meu corpo pesar na cama, ser praticamente engolida pelo colchão. Um nó tomava conta de meu corpo inteiro. Sentia como se um mar viesse à minha garganta. Sentia tudo muito confuso… Sentia-me morta.
Mas eu sonhava… E porque eu sonho, eu não o sou.

Levantei, perambulei um pouco pelo apartamento. Sentia um vazio em mim. Quis confirmar que não era fome, fui até a cozinha. Comi um pedaço de cuscuz que deu errado, salgado, ruim. Fui vendo as opções, senti-me um erro.
Mas eu sonho. E, porque eu sonho, eu não o sou.

Andei mais um pouco, cheguei na janela um instante. O sol se punha, rasgando em tons de fogo o céu púrpura.
Olhei para o lado e tinha um gato descansando. Parecia tão deprimido quanto eu. Ou sonhador, sei lá. Tomei-o entre os braços e voltei à janela. Sentia o mar indo e vindo, via o vento tocar-me o rosto, ouvia o céu, lindo e triste. Triste…
…e sonhador. E por isso, eu não o sou.

Deitei um pouco no sofá colocando o pequeno animal em meu lado. Fiquei observando seus movimentos, ele olhava fixo para a janela. Segui seus olhos e vi uma borboleta pousada no vidro, linda como ela poderia ser. Sorri, chorei, rezei, sonhei…
E sim, eu sonho! E por isso, tudo e nada sou.

Fui até a janela, olhei fixamente para ela. O gato pediu carinho, deitou-se de barriga pra cima e, de tanto esticar-se, caiu do banco estreito. Assustado e medroso, correu. Eu sorri e segui seus passos. Apanhei-o debaixo da cama e deitamos juntos, com afagos. Ele andava por cima de mim, deitou-se ao meu lado. Sorri feito boba!
Mas porque eu sonho, eu não o sou.

Percebi quanto minha vida parece um filme. Imaginei se alguém me assistia, quem seria o roteirista ou o diretor. Quem guiaria meu destino? Seria eu uma marionete?
Não. Eu sonho. E porque sonho, não o sou.

Fiquei pensando em toda a minha história, imaginando-a daqui pra frente. Esperando e sonhando com um verdadeiro amor, vivendo e sentindo cada instante. Daqui pra frente tudo muda. Eu sonho.

Me vi assim, pensando esteticamente.
Imaginei o que o elenco espera de mim. Imaginei o que o roteirista destinaria a mim. Sonhei mais um pouco…

Mas sempre restará uma pergunta, uma dúvida, um enorme ponto de interrogação. Sentei, escrevi a respeito. Vi minha vida na tela sendo exibida em circuitos alternativos de cinema. Sendo postumamente aplaudida por garotas intelectualizadas com óculos de aro grosso e cabelos falsamente vermelhos. Vi todas as cenas, vi, inclusive, o final. Mas teve uma coisa que não me ficou clara: Se o mundo é tão cinematográfico, se tudo parece tanto com um filme, se a vida imita tanto a arte… Terá meu filme um final feliz?

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