Formoldeído

Subversão.

Acabei de comer um pedaço de bolo. Logo o almoço estará pronto. Eu gosto de comer o doce antes do salgado.

Meu almoço de hoje será pão. Eles ficam deliciosos com queijo, azeite, orégano e molho de tomate. Eu gosto de almoçar pão.

Faltam quinze minutos para a meia noite. Este é o horário que escolhi pra almoçar. Foi agora que me deu fome, oras!

Acordei agora a pouco. Quando dormi, já era manhã. Estou de férias. Posso fazer isso, se quiser.

* * *

Desculpe, senhora, se sou um monstro por isso. Se sou um monstro por acreditar que meu corpo pedirá o que quiser, na hora que quiser. Desculpe se odeio peixe com queijo prato, se passo mal dias e dias quando engulo aquelas coisas recheadas de má vontade.
Desculpe, senhora, pois sou, sim, um monstro. Um monstro aterrorizante que faz a pequena criança chorar. A pequena criança, coitada, que nunca erra; que nunca machuca; que jamais faria sofrer.

Coitada daquela criança, senhora. A pobre criança inocente, engolida por uma vida de erros e luxúria. A pobre criança que ainda não sabe a diferença entre beterraba e espinafre; que mal fala o português; que mal sabe o que quer da vida.
Aquela criaturinha rosada e virginal… Ela não, não é um monstro. Nunca foi e nunca o será.
A senhora está certa. Em acalantá-la toda vez que chora. Em colocá-la no colo e dizer que é uma boa criança. Que Papai Noel nunca dela esquecerá. Ela não é um monstro. Monstros são insensíveis, não choram. Ela não pode ser um monstro. É só uma pobre criança, afinal.
A criança que, de fraldas, passeia pela casa. Engatinha pelos cômodos; espera pela mamadeira; só dorme com canções de ninar. Exibe suas cicatrizes do terrível monstro do armário, sua pele com marcas vermelhas, lotadas de sofrimento, dentre mordidas vorazes e arranhões cruéis.

Proteja-a do monstro, senhora. Proteja-o! Traga-o para si, coloque-o no colo, mais uma vez. Reclame, brigue! Mas só quando for preciso. É deste modo que a senhora faz. E é deste modo que a senhora sempre acerta. A senhora, a dona da casa. A dona do mundo, a guardiã da árvore da vida.
A senhora, Dona Certeza. Aquela que sabe das coisas e conhece o mundo melhor do que ninguém. Pra qual qualquer um deve baixar a cabeça e acatar qualquer suspiro ou ordem ou decisão. A senhora, rainha de todas as culturas e todas as receitas. Rainha de todas as ervas e todos os remédios. A senhora, Senhora do Mundo. Que nele manda; que nele desmanda; a quem ele obedece.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s