Formoldeído

Um "conto" de Natal.

Ok. Ele me pegou.

Enquanto eu cortava pedacinhos de pão para fazer um lanchinho, o Espírito Natalino adentrou meus ouvidos e já tomou conta dos olhos, das narinas… De tudo, enfim.

Eu costumava odiar o Natal. Costumo, na verdade. Mas desta vez… Desta vez ele me adentrou as entranhas.

Como eu dizia, cortava pãezinhos para comer e, graças à minha inabilidade com o Windows Media Player, não sei mais como fazer pra colocar as músicas em ordem aleatória. E cá eu estava, ouvindo Hard Rocket feliz e satisfeita quando, não mais que de repente, um belíssimo repertório Celta começa a tocar. Lá pras tantas, eis que me começa a linda versão de Noite Feliz, tocada por uma harpa folk.
Foi como se ouvisse as gargalhadas do Bom Velhinho, como se o Espírito Natalino tivesse vindo, em pessoa, passear pela minha cozinha.

Lembrei de tempos atrás, lembrei de meus últimos Natais. Um turbilhão de memórias, idéias, sonhos esquecidos.

Senti. Senti que é Natal, que ele está chegando. Senti, enfim, que o ano está acabando. Que o Ano Novo será realmente novo, que tudo irá mudar. Respiro fundo e tenho, já, a sensação de ar novo entrando nos pulmões.

Lembro-me do Natal em que descobri que Papai Noel não existia. Achei minha Sorveteria da Barbie escondida debaixo da cama – graças a uma bolinha que caiu no chão. Imaginem uma criança feliz com aquela descoberta!
Mas… Como aquilo teria ido parar ali..? Debaixo da cama de meu irmão? Faltavam meses para o Natal!!
Sem titubear, peguei a enorme caixa e fui até a sala: “Mãe! Mãe! Olha o que eu achei!!”
Lembro como se fosse hoje. Ela, desconcertada, arrumou a pior desculpa possível. Disse que Papai Noel, por ser muito ocupado, entregou o presente antes da hora… E que, sabe Deus de onde ela tirou este complemento, ela já ia mandar o cheque pra ele.

¬¬’

Uma fada morreu naquele momento. Lembro de ter desatado a chorar, chorar, chorar…

Talvez, ali, o Espírito Natalino tenha morrido pra mim. Talvez anos depois, não tenho certeza. Mas fato é que, desde que me lembro, Natal nunca foi uma coisa boa pra mim. Sempre me sentia triste, melancólica. Sempre tinha alguma coisa ruim, dando errado.
Quando não, eu não estava nem aí. Queria ir embora da festa e pronto.

Aos 12 anos, lembro que fiquei impaciente ao dar meia noite, porque eu tava de saco cheio daquilo e já era hora de entrar no mIRC.

Ano passado, na véspera de Natal, terminava, definitivamente, um relacionamento que durou, mais ou menos, três conturbados anos.

As memórias me são confusas. Mas, ainda assim, lembro da sensação ruim.

Acho que a última pá de terra em cima do Espírito Natalino que vivia em mim, minha mãe jogou quando combrou um desses pinheiros de plástico. Fazíamos árvores novas a cada ano, cada vez com um material diferente. Inovávamos, criávamos.
Mas minha mãe perdeu o gosto pela coisa. E comprou aquele maldito pinheiro de plástico.
Tentei recuperar, tentei estimulá-la a fazer comigo novas árvores… Cheguei a fazer por minha conta e risco.

“Ah, que bonita.”, ela dizia sem qualquer empolgação. Ignorava meu esforço e lá ia, arrumando a mesma maldita árvore de plástico, com os mesmos enfeites compradosna Mesbla uns cinco anos antes.

Era triste. E por cansar desse triste, eu desisti. E desisti também do Natal, do vinil com bonecos de biscoito que toca músicas natalinas. Desisti das novas árvores, desisti dos presentes, desisti da roupa vermelha. Com o tempo, esqueci de mudar o toque do celular; o Natal se resumia ao Dia-Em-Que-Eu-Encontro-Os-Parentes-Chatos-E-Passo-Mal-Com-O-Cheiro-Do-Peru. Era tentar não ir pra festa e, quando lá, me esconder dentro do quarto e ficar lendo ou jogando no celular.

E o Papai Noel, pra mim, não passava de um coroa gordo, bêbado e pervertido, flertando com as moças de shortinhos minúsculos e colocando, impaciente, crianças tão impacientes quanto no colo.

E este ano, todas as festas foram vagas e sem sentido. O São João passou batido, a Páscoa eu nem vi chegar! Até meu aniversário foi assim.
Aconteceu. Teve festa. Mas eu não senti assim, sabe?

No dia, mesmo, eu não acordei com aquela sensação gostosa de Aniversário. Por diversas vezes, ao longo do dia, eu esquecia que era meu aniversário. Não tinha empolgação. Eu estava com pressa, estava atrasada, não estava com quem eu, de fato, gostaria de estar.
Aliás, nem sei com quem gostaria de estar aquele dia!
Acho que só. num casulo. Em silêncio.
Ou nem isso.
Era um dia, como outro qualquer.

Mas não sei. Senti algo diferente enquanto esquentava aqueles pedacinhos de pão, na cozinha.
Um sopro quente na nuca, um frio gostoso na barriga.
Aquela ansiedade. Aquele formigamento gostoso que vem do chão e é absorvido pela sola do pé. Vem subindo, o corpo inteiro, com brilhos e coisas vermelhas, com bolas cobertas de glitter, com luzes piscando, sonhos voltando… Com presentes e surpresas, pedras escondidas dentro de caixas. Belas caixas.
Veio um cheiro de rosca e frutas cristalizadas. Eu odeio frutas cristalizadas! ehauheua
Senti gosto de amêndoas, nozes e castanhas. Sinto a textura do festão na minha mão, da neve de mentira feita com algodão.

Ouço os sinos, ouço os guisos. Sinto o cheiro da rosca ficando pronta. Vejo as luzes de Natal.
E, finalmente, depois de muito, muito tempo, me sinto bem. E estou, de fato, feliz com isto.

Espero que não passe… Espero que não seja só agora…

De qualquer modo, tinha que escrever. Não podia perder este momento.

Feliz Natal a todos vocês. E saibam, crianças, que Papai Noel existe sim. E ele se alimenta do Espírito Natalino.
Portanto, não deixem morrer… Não deixem morrer!

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