H2SO2

Natália (ep. 02)

– Oi.

– (…)

– Cê tá bem?

– (…)

– Olha, não mente pra mim… Não mente pra si mesma… Você sabe que não está tudo bem.

– (…)

– Olha, Natália, isso já está ficando ridículo.

– (…)

– Isto, desculpe.

– (…)

– É sério. Olhe pra você, cara.

Natália parou em frente a uma loja de brinquedos. Viu seu próprio reflexo na vitrine e se sentiu mal, muito mal. Aquele vestido vermelho de bolinhas brancas estava esquisito e demodê, mas não era aquilo. Seu cabelo estava num tom de castanho queimado da metade pra baixo e todo desgrenhado naquele coque mal-feito. Fazia bastante tempo que ela não retocava a tinta ou aparava as pontas… Mas também não era aquilo. A bolsa puída, os sapatos de plástico, a sobrancelha por fazer… Nada daquilo estava certo, mas não era o problema, de fato. Não era o maior incômodo. Era o celular. O problema era a porcaria do celular.

Natália se viu inquieta. Estava incomodada com a cena que estava vendo. Abriu o saco de tecido que insistia em chamar de bolsa e arremessou o celular lá dentro. Respirou fundo e saiu andando ereta, pisando duro. Deu dois passos e parou. Olhou para a bolsa, olhou para o seu reflexo… Olhou para a bolsa mais uma vez e segurou a alça com força. Respirou fundo mais uma vez e começou a caminhar decidida.

– …e não vá esquecer de passar na farmácia, hein? O remédio para coceira na unha do dedo do meio do pé esquerdo já está acabando e você sabe muito bem o que acontecerá se você passar o remédio para pés direitos, não sabe?

Natália passou em outra vidraça, desta vez de um banco e percebeu que lá estava o maldito celular de novo! Sem sequer perceber, Natália já pusera a mão na bolsa e pegara aquele maldito telefone outra vez. Fechou o flip correndo e atirou o aparelho na bolsa como se fosse um artefato enviado diretamente pelo demônio, ficando imóvel por dois segundos. Olhou para dentro da bolsa. Olhou para sua imagem refletida no vidro.

Bolsa.

Vidro.

Bolsa.

Vidro.

Natália fez aquela cara de quem está puta por ter se dado por vencida e, em completo estado de ira consigo mesma, alcançou o celular na bolsa e pôs no ouvido. Fitando seus próprios olhos com fúria e, com apenas uma sobrancelha levantada, disse em tom severo:

– Olha, Natália, isso já passou do limite. Você precisa de ajuda!

Enlouquecida pela frustração, Natália arremessou o telefone celular longe e caiu em prantos, largando o traseiro na calçada. A água que escorria da recém-lavada lanchonete do Seu Ademário molhou seus sapatos, fazendo-a sentir-se a pessoa mais estúpida do mundo.

Sentada no chão, com os pés enxarcados pela sarjeta, chorando convulsivamente: Natália era a imagem de uma mulher destruída.

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