H2SO2

Felipe

Felipe entrou no apartamento esbaforido e nem disse “boa tarde”.

– Fê, me empresta seu secador de cabelo?

Fernanda era linda. Morena de nascença, era a loira mais bonita do bairro. Da cidade. Do mundo! Felipe era apaixonado por ela desde os tempos de colégio. Na verdade, se encantara por ela desde o momento que a viu pela primeira vez, na segunda série. Ela já era a menina mais popular da escola e Felipe não pôde deixar de cair de encantos por ela.

Foi no terceiro bimestre que Fernanda falou com ele pela primeira vez. Queria cola para a prova de Geografia e pediu a Felipe, que sempre tirava as melhores notas da classe. Mas Felipe tirava as melhores notas de Matemática e nunca fora lá o aluno mais dedicado de Geografia… Mas sua amada Fernanda precisava de ajuda naquele momento de dificuldade e estudou a Geografia em dobro, só para garantir que sua adorada tirasse uma boa nota. O tempo foi passando e Felipe agora estudava Geografia, História, Ciências… Tudo em dobro, só para passar cola pra Fernanda. E os dois passaram de ano muito bem, com praticamente a mesma média. Acabaram ficando amigos.

Os anos foram passando e Fernanda nem colava mais. Ela e Felipe estudavam juntos, brincavam juntos, passeavam no shopping juntos e sempre estavam no mesmo time na aula de Educação Física. Eram uma dupla imbatível: Fê e Fê.

Só que a Fê jamais vira o Fê como algo diferente de seu melhor amigo, enquanto o Fê nunca deixara de ver a Fê como a futura mãe dos filhos dele. Ela namorava e ele se corroía de ciúmes, mesmo sem dizer palavra. A Fê terminava o namoro e o Fê já sabia que aquilo iria acontecer (afinal, ela era sua predestinada), mas a confortava e afagava sem jamais tirar uma casquinha. A respeitava e idolatrava. Era um eterno apaixonado por ela.

Quando tinham lá pelos seus dezessete anos, o Fê decidiu fazer faculdade na capital e convenceu a Fê a ir com ele. “Aqui não tem oportunidade, Fê!”, e lá foram eles morar juntos na cidade grande. Na cabeça do Fê, aquilo era tipo um casamento. Na cabeça da Fê, era a chance perfeita de sair de baixo do olhar atento e regulador de Seu Adoniran, seu pai, e aproveitar tudo o que a cidade grande tinha a oferecer.

O Fê logo percebeu que estava errado, quando se deu por conta da fila de homens que batia na sua porta quase que diariamente. Tinha loiro, moreno, careca, cabeludo, negro, ruivo e japonês. Todos com carros grandes e bonitos, camisetas de marca e tênis importados. Não raro, chegava em casa e nem podia estacionar o carro na garagem, pois tinha um C4 ou um A5 ou qualquer outro desses carros com sigla alfa-numérica no final que ele nem sabia o que significava. Acontecia tanto, que ele se chateou e vendeu o fusca. E logo se arrependeu. Mas era pela Fê… Felipe fazia qualquer coisa pela Fê. Bastava olhar praquela baixinha linda que todos os seus problemas desapareciam.

E a vida de Felipe era assim, toda em função da Fê. Fazia faculdade de Engenharia Elétrica pela manhã e chorava em silêncio à tarde. À noite, se trancava no quarto para estudar enquanto a Fê recebia suas visitas, normalmente masculinas. Ligava o som alto pra não ouvir os gemidos do quarto ao lado, mas depois que a Fê reclamou, passou a fazê-lo com fones de ouvido. Estudava até sentir os olhos doerem e chorava um pouco mais. E ficava nessa até adormecer por cima dos livros e acordar às cinco e trinta e cinco em ponto para um novo dia de aula e choradeira. Nos fins de semana, levava a roupa pra lavanderia e comprava o jornal. Assistia a algum filme sozinho ou lia um romance policial. Para espairecer, sabe?

E esta era a vida de Felipe.

– Meu, Felipe! Olha pra isso! Você tá molhando a sala toda…. E pra que você quer o secador, hein, se você nem tem cabelo? Ahahahahahah!

– Sério, Fernanda! Preciso do secador. Você pode me emprestar ou vou ter que ir pedir lá no vizinho?!?

– Nossa, Fê! Que bicho te mordeu, hein? Que horror… Pega o secador lá no meu banheiro! Eu, hein…

Felipe sequer esperou Fernanda terminar a frase. Largou a mochila encharcada no chão e correu pra buscar o secador. Voltou no mesmo pé que foi, não dando nem tempo de Fernanda espiar o que tinha na mochila. Quando ela estava terminando de abrir o zíper, Felipe voou em cima da mochila e a puxou com toda força, fazendo caírem uma carteira de cigarros mentolados, algumas moedas, um baralho e um celular todo molhado no chão, bateria prum lado e celular pro outro.

– Que celular é esse, Felipe?

– Achei na rua. – disse secamente, juntando tudo e se trancando no quarto.

– Tem que funcionar…. Tem que funcionar… – dizia entre dentes enquanto tentava compulsivamente secar qualquer resquício de umidade do aparelho. – Tem que funcionar!

Fernanda estava tão revoltada quanto abismada e decidiu que a única solução para essa súbita rebeldia de Felipe era um pouco de drama barato. Deixou o chão da sala molhado e bateu a porta da frente com toda a força. Chegou às duas da manhã, completamente bêbada, pronta pra jogar umas boas verdades na cara de Felipe. Mas Felipe não estava em casa…

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