H2SO2

Natália (ep. 03)

– Bom dia, doutor.

Natália era uma moça bonita, o doutor podia perceber. Escondia-se sob uma carapaça de hipponga desleixada, mas era bonita. O cabelo preso num coque mal-feito no alto da cabeça e aquele vestido de florzinhas definitivamente não ajudavam, mas os traços de Natália eram bonitos como poucas vezes ele tinha visto. Exalava um perfume suave e muito conhecido. De onde conhecia aquele cheiro?

– Bom dia. Natália, não é isso? Você está um pouco atrasada, aconteceu alguma coisa..?

– Olha, doutor, sendo bem honesta com o senhor, eu dormi demais esta manhã. Mas é que à noite eu mal preguei o olho… Não tenho dormido bem.

“De onde conheço esse perfume? Me é tão familiar…”, pensava o doutor.

– Ahm… Alguma coisa está te afligindo..?

– Hummm… Ah, eu ando um pouco preocupada, sabe?

Natália estava um tanto absorta. De cabeça ligeiramente abaixada, Natália levantou rapidamente o olhar para o doutor, mas estava mais concentrada em algo na sua bolsa-sacola-gigante. A moça tentava ser discreta, mas o doutor percebeu que algo estava estranho na movimentação da sua nova paciente.

– Algum problema, Natália? – Disse inclinando discretamente a cabeça para tentar enxergar melhor.

Natália soltou rapidamente algum objeto que o doutor não conseguiu definir qual era e soltou rapidamente a tampa da bolsa por cima. “Alma de Flores!”, lembrou o doutor. O mesmo cheiro da sua falecida Tia Petinha. Como sentia saudade da Tia Petinha e seus quilos e mais quilos de sabonete Alma de Flores…

– Hã? Desculpa, doutor. Estava… Estava distraída.

– Ehrmm… Me fale… Me conte mais sobre você. Onde você nasceu? Como é a sua família? Você tem uma boa relação com a sua mãe? Natália..? Você está me ouvindo?

– Bom… É… Desculpa. Então… Onde estávamos? É mesmo. Minha mãe. Minha mãe é uma pessoa muito boa, maravilhosa. Somos de uma cidadezinha pequena chamada Milagres e meu pai tinha uma loja de ferragens. Minha mãe sempre foi dona de casa. Aí… Aí um dia…. Um dia…. Só um instante, doutor.

O doutor assentiu com a cabeça, mas já não conseguia disfarçar a sua curiosidade em saber o que diabos a sua paciente tanto olhava na bolsa. Além do mais, estava se sentindo desrespeitado! Perguntou em tom severo:

– Natália… O que você tanto mexe aí, hein? O que de tão importante você está fazendo que não pode esperar o fim da sessão?!?

Natália ficou pálida. Com os olhos azuis arregalados fitando os do doutor, Natália parecia uma criança pega em flagrante ao aprontar alguma travessura. Os cabelos já aloirados devido à longa ausência de tinta lhe caíam desgrenhados sobre o rosto. No susto, Natália tinha deixado a bolsacola cair no chão e o doutor percebeu que ela segurava o celular com força na mão direita.

O doutor olhou para o celular e novamente para Natália, sem entender absolutamente coisa alguma.

– Você está com algum problema, mocinha? Alguma coisa que eu possa te ajudar..? – disse o doutor com uma voz serena e reconfortante.

Natália respirou fundo e soltou os ombros. Olhou bem nos olhos do doutor e disse com sinceridade:

– Olha, doutor….

…desviou rapidamente o olhar pra janela do consultório, não conseguindo disfarçar um certo rubor nas bochechas…

– …eu não estou pronta pra falar sobre isso.

Agarrou a bolsa vorazmente com a mão esquerda e levantou-se. Sem que desse tempo de o doutor reagir, disse um “Com licença. Passar bem.” um tanto seco e desesperado e saiu como um raio da sala. O doutor, completamente atônito, só pôde sentir o vento da porta sendo batida, seguido de um baque quase ensurdecedor. O cheiro de sabonete Alma de Flores ainda pairava no ar do consultório….

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3 comentários em “Natália (ep. 03)

  1. Ainda essa semana meu professor de tradução de italiano comentava, lendo o livro “la solitudine dei numeri primi”, que o autor era excelente pelo seu estilo detalhado de narrativa. Ele não puramente descrevia um movimento, como “inclinar a cabeça”, mas dizia “inclinou levemente a cabeça (num tom pensativo)”, esse tipo de coisa. Ao ler seu texto lembrei-me disso, sua narrativa descreve tão bem o ambiente que tem-se a impressão de estar na cena. Parabéns =)

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