H2SO2

Natália (ep. 04)

– Porra, Natália! – disse para si mesma como há muito não fazia: em voz alta e sem celular.

O celular tinha sido atirado longe em um momento de fúria e agora Natália não fazia a menor idéia de onde ele estava. As lembranças daquele momento eram ínfimas e enturvecidas pela ira que sentira. Afora Natália estava confusa e perdida. Não conseguia mais fazer notas mentais ou sequer concatenar os pensamentos em uma seqüência lógica. Precisava do celular de volta!

Pensamentos vinham à sua cabeça, mas ela não conseguia coordená-los. Algo sobre heroína e viciados, algo sobre efeitos colaterais, sobre síndrome de alguma coisa e sobre não parecer uma idéia muito brilhante abandonar a substância viciante duma só vez. Mas ela não entendia muito bem o que ela mesma queria se dizer… Apenas sabia que precisava do maldito celular de volta.

Mas ela já tinha olhado e reolhado milhares de vezes..! Treolhava e tetrolhava e nem sinal do celular. Tentava refazer os próprios movimentos. Olhou seu reflexo naquela vidraça daquele mesmo banco e, sem conseguir dizer palavra – ou sequer pensar em palavra pra dizer -, comunicou-se consigo mesma de uma maneira que o celular jamais poderia prover. Com fúria e sangue no olhar, levantou a mão direita fechada em punho e, trêmula de ódio, levantou o dedo do meio com a decisão de quem diz impropérios e desaforos que fariam qualquer beata fazer o sinal da cruz tantas vezes quanto um terço tem bolinhas. Alguns segundos imóvel e o desespero a tomou mais uma vez. Natália começou a gritar e espernear, dando socos e pontapés (e, por vezes, até beliscões) no ar, grunhindo e rosnando em uma cena tão patética quanto assustadora.

Um senhor de meia-idade que ia ali passando viu a situação da moça e, ao contrário de todos os outros que o fizeram, resolveu não sair correndo ou apenas ficar olhando empasmecido mas tentar, ao menos tentar… ajudar.

– Moça? Mocinha? Ei, psiu! Moça!

Ao sentir a mão firme-porém-suave do simpático senhor em seu ombro, Natália sentiu uma ternura que há muito não sentia. Era uma mão acolhedora… Era uma mão reconfortante… Era uma mão amigável. É, é esta a palavra que define o que Natália sentiu naquele momento. Era uma mão amigável. Assustada e enternecida, Natália olhou com os olhos cheios d’água no fundo da alma daquele gentil senhor.

– Moça..? Calma, moça…. Calma… Calma… Respira… Isso! Respira. A senhorita aceita um copo com água? Ou um suco, de repente?

Seu Ademário era dono, gerente, caixa e garçom da lanchonete Santo Expedito e servia o melhor suco de mangaba verde com pitanga da cidade. O querido leitor pode achar estranho um suco de mangaba verde com pitanga, mas é porque nunca o provou feito pelas mãos do próprio Seu Ademário. Tinha um gosto refrescante e consistente, daqueles que saciam sua fome e sua sede ao mesmo tempo. E, meio que como um zumbi com o modo “comer cérebros” desativado, tudo o que Natália conseguiu fazer foi assentir com a cabeça e se deixar levar pela tão amigável mão do Seu Ademário.

Sentada no melhor banco alto do estabelecimento, Natália, já bem mais calma, mexia as últimas pedrinhas de gelo do fundo do copo com o canudo e balançava os pezinhos no ar. A bolsa gigante estava em cima do balcão e os sapatos plásticos jaziam no chão, sob seus pés.

– E então, moça bonita? Está mais calma, agora?

Natália sorriu e fez que sim com a cabeça. Ainda estava meio sem palavras, mas tentou esboçar um “muito obrigado, o senhor foi muito gentil”.

– Imagina, moça. Fiquei condoído de ver seu desespero. Meu nome é Ademário, mas todos aqui me conhecem como Seu Ademário.

Natália apertou a mão estendida do Seu Ademário e disse com um sorriso singelo:

– Natália.

– Prazer, Natália! – Disse Seu Ademário com um sorriso largo no rosto – Mas… Natália… Se a senhorita me perdoa a curiosidade… O que te deixou tão abalada, hein?

Natália ficou pálida e engoliu em seco. Com aqueles gigantescos olhos azuis, olhou para o Seu Ademário e se sentiu um pouco constrangida. Pensou em mentir o motivo… Mas não seria justo fazê-lo com um senhor tão bom.

– Eu… Ehr… Eu… É que eu… Eu perdi meu celular.

Seu Ademário permaneceu em silêncio e Natália tratou logo de se justificar.

– Parece bobagem. E é mesmo, né? Tanto desespero por causa de um celular. Mas é que eu… Eu… Eu preciso muito dele.

– Ora, moça! Bobagem nada! Eu mesmo já fui assaltado uma vez e levaram meu celular embora, parecia que tinham levado uma parte do meu cérebro!

Natália nunca se sentira tão compreendida.

– …Tudo meu estava anotado ali. Todos os telefones e compromissos, fiquei um tempão tentando recuperar a agenda toda! Mas isto foi o de menos. Aqueles crápulas! No celular ainda tinha umas fotos e uns vídeos da mamãe… Ah, nunca terei aqueles vídeos de volta! Mamãe morreu logo depois, sabe? E aqueles bandidos sem-vergonha levaram minhas últimas lembranças dela… Uma lástima! E tudo isso pra comprar umas pedras de crack. Essa geração… Este mundo está perdido, mesmo!

Natália não podia deixar de sentir-se envergonhada pelo dramalhão que fizera por aquele celular. Nem tinha sido tomado por um vagabundo qualquer… Ela mesma o tinha atirado! Sem dizer palavra, ia balançando a cabeça conforme Seu Ademário ia falando, ora concordando com o que ele dizia, ora reprovando a atitude dos ladrões malditos que roubaram as tão preciosas memórias de Seu Ademário.

– A senhorita já tentou ligar pra ele?

– Hã? Ligar pra quem?

– Pro celular, ora! Pra saber. De repente alguém de bom-caráter o encontrou e pode devolvê-lo pra senhorita!

Que brilhante idéia! Natália quis dar um abraço no Seu Ademário. Quis tanto que, de fato, deu um pinote pra cima do balcão e o abraçou como quem abraça o salvador da sua vida. E assim o era, pra Natália, naquele momento: o salvador da sua vida, da sua pátria e da sua… sanidade?

– Obrigada, obrigada! Que idéia maravilhosa! Como não tinha pensado nisso antes?!? O senhor é um gênio, Seu Ademário!

– Que é isso, moça! Que é isso… Assim a senhorita me deixa encabulado. Tome, use aqui meu telefone.

Natália tirou o telefone do gancho e deu umas três voltas para desemaranhar o fio. Conferiu se estava dando linha, respirou fundo e discou os três primeiros dígitos. Desligou o telefone e ficou pensativa.

– O que foi? Algum problema na linha?

– Não, não… Sabe, Seu Ademário… Sabe quando a gente sente que alguma coisa muito grande está pra acontecer?

– E o que seria essa coisa muito grande, Senhorita? Seria algo ruim?

– Não sei… Não sei ao certo. Mas acho que não é ruim, não. Mas sinto… Sinto que ao discar esse número, alguma coisa vai mudar para sempre em minha vida. Mas… O que será?

– Bom… Só tem uma maneira de descobrir.

E Seu Ademário entregou o gancho do telefone pra Natália. Ela sorriu nervosamente, deu de ombros e resolveu discar.

O telefone chamou.

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