H2SO2

Natália (ep. 05)

– A-alô?

– A-a-alô? Oi, é que eu… Eu perdi esse telefone e…

– E eu achei. Quer dizer… Você praticamente o arremessou em mim. Vo-você é a moça bonita do vestido vermelho, não é?

Natália olhou para a roupa que estava vestindo e corou imediatamente. Seu Ademário deu aquele sorrisinho cúmplice e, deixando a moça mais à vontade, entrou para a cozinha.

– Ehr… Vestido… Eu… Ehr… Desculpa. Não quis arremessar o celular em você, eu… Desculpa. Você se machucou?

– Não, não… Imagina, não mesmo! Escuta… Acho que você quer seu celular de volta, não é? Imagino que sim. Claro que sim, que pergunta idiota. Olha, eu… Eu não estou fazendo nada agora e… E… E eu posso levar o celular pra você, se você quiser.

– Ahm, mesmo?!? Nossa, obrigada! Obrigada mesmo. Não vai te atrapalhar? Olha, eu posso te dar uma recompensa e…

– …Não, que é isso, de jeito nenhum! Escuta, você está muito longe da Av. Senador..?

– Não, não estou. Estou bem perto, na verdade.

– É que tem um café muito bom na Gérbera… É uma ruazinha transversal da Senador, não sei se você conhece… É o Café Cara…

– …melo. Hehehe, sim, eu sei onde é.

– Eles servem o melhor capuccino da cidade. A-a g-gente poderia se encontrar lá e… E eu te entrego o seu celular.

– Ehr… Claro… Por que não? É. Ok. Tá bom.

– Ok, então. Estarei lá em doze minutos.

*Clic.*

– Seu Ademárioooo!!!

– O que foi? O que foi? Aconteceu alguma coisa?!?!?

– Aconteceu. Quer dizer, não sei. Foi um rapaz que atendeu. Um rapaz muito simpático. Ele sabe quem eu sou, disse que me viu quando arremes…. Quando perdi o celular.

– Hum…?

– E ele… E ele pediu pra encontrá-lo ali no Café Caramelo, sabe onde é?

– Sei sim! Fica a duas ruas daqui. A Flora, dona de lá, é muito minha amiga. É só você sair aqui na rua, virar à direita ali na Senador e…

– Eu sei onde é. Já fui muito lá. Mas é que… Estou com um pouco de medo.

– Medo? Mas medo de quê, ora pipocas?!?

– Medo, ué. Medo de encontrar um desconhecido. Medo de ele ser um psicopata e de tentar me matar. Medo de…

– Ah, mas a Senhorita não quer o celular de volta?

– Quero, ué. Claro que quero!

– E não é um lugar conhecido e bem movimentado?

– Ah, é sim…

– E você não freqüenta o lugar e conhece todo mundo?

– Ah, mais ou menos, né? É que faz tempo que não vou lá e de repente mudou o pessoal e…

– *Caham.*

– É. O senhor tem razão. Que mal pode haver, né?

Seu Ademário assentiu com um ar de certeza. Natália calçou os sapatos e pôs a bolsa no ombro, enquanto procurava a carteira naquela imensidão sem fim que chamava de bolsa.

– Quanto te devo, hein, Seu Ademário?

– Ah, que é isso! Só um belo sorriso pra mim já é o bastante.

Natália abriu um sorrisão.

– Mas assim o senhor vai à falência!

Seu Ademário balançou a cabeça sorridente e foi conduzindo Natália até a porta.

– Anda logo, se não a senhorita vai se atrasar.

– Muito obrigada, Seu Ademário. Não tenho palavras pra agradecer ao senhor!

– “Muito obrigado” já é o suficiente e a senhorita já o disse dezenas de vezes. Anda logo! O Felipe é um bom rapaz e a senhorita não vai querer deixá-lo esperando lá no Caramelo…

Antes que Natália, boquiaberta, pudesse perguntar como Seu Ademário sabia o nome do rapaz que estava de posse de seu telefone, ela já estava na calçada e o jovem senhor já tinha sumido como se fosse feito de fumaça.

Natália deu dois passos, passou as mãos no rosto, ajeitou o cabelo como pôde e correu. Correu em direção ao Café Caramelo. Correu em direção ao seu Destino.

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