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Adolfinho

Adolfinho nunca gostara de jogar bola ou de brincar de Comandos em Ação. Mas brincava ainda assim, porque é disso que os meninos brincam, não é mesmo?

Aos seis anos foi pra Bélgica pela primeira vez, conhecer Tia Petinha, amiga de colégio de sua mãe, e foi a primeira vez que se sentiu feliz de verdade. Tia Petinha era uma senhora robusta e de ombros largos e, apesar do mau-trato da idade, ainda era muito bonita. Vivia sempre bem maquiada e penteada, sempre exalando aquele cheiro de sabonete Alma de Flores. Era a senhora mais adorável que Adolfinho já vira na vida!

O marido dela, Tio George, era meio caladão, mas era gente boa. Não falava português muito bem e tinha aquele jeitão teso de militar, mas sempre tratara Adolfinho com muita gentileza e simpatia. Era um casal maravilhoso e, não fosse a saudade de sua mãe, jamais voltaria para o Brasil. Aliás, sonhava com o dia em que Nelinha tomaria coragem e aceitaria o convite de Tia Petinha de ir morar na Bélgica, mas a mãe de Adolfinho jamais conseguiria abandonar o Brasil. Uma pena! Adolfinho detestava o calor e sempre se sentira mais à vontade na casa de Tia Petinha, onde podia passar horas a fio penteando os cabelos ou admirando a lindíssima coleção de bonecas de louça da Tia. Sentia-se livre quando estava lá e, assim que pisava no Brasil de volta, começava a contagem regressiva para o Natal seguinte.

Foi assim por muitos anos e, mesmo depois de formado em Medicina, Adolfinho continuava indo visitar sua querida Tia Petinha lá na Bélgica. Com o tempo, as visitas foram se tornando cada vez menos freqüentes e, agora pai de família, Adolfo tinha que passar o Natal em casa. Adelaide, sua esposa, era bem tradicionalista nesse sentido (e em todos os outros que você puder imaginar) e fazia questão de ter toda a família reunida no Natal. E Adelaide não gostava que Adolfo fosse visitar a tia na Bélgica, “primeiro porque você sempre volta todo estranho de lá e segundo que você sabe que eu não vou com a cara dessa sua Tia Petinha”, dizia ela sempre que o assunto surgia.

Quem ia cada vez menos com a cara de Adelaide era Adolfinho, mas fazer o quê? Era sua esposa, estavam unidos pelos laços do sagrado matrimônio! Tinha jurado amá-la na saúde e na doença e tinham dois lindos filhos, Adolfo Neto e Délia – ou Delinha, como a chamavam. Adolfinho seguia meticulosamente a cartilha da família Doriana e, como bom De Morais que era, batizara seus filhos seguindo a tradição da família: os homens levam o nome do pai e as mulheres têm o nome começado com qualquer consoante seguida do sufixo “élia”. Era assim com sua vó Célia, sua mãe Nélia e não podia ser diferente com sua filha Délia.

Isso tinha um quê de superstição também. É que desde muito menino, sempre ouvira a história de que seu avô deixara Dona Celinha escolher o nome do primeiro filho independente da tradição e, como punição, Deus tirara-lhe o filho antes que fosse adulto. Já pensou? Longe de Adolfinho ter um filho morto por culpa sua. Jamais! E quando seu menino enfim nasceu, tratou logo de batizá-lo como Adolfo Neto, que era pra evitar a fúria do Cosmos.

Adolfinho sempre odiara a Medicina, mas fizera o curso pois sabia que Seu Adoniran jamais respeitaria um neto que não fosse doutor. Como sabia que não prestava pro Direito, acabou indo pra Medicina e se especializando Psiquiatra, pois foi a única especialização que se interessou em fazer. Odiava também a Psiquiatria, mas que jeito? Era aquilo que tinha decidido fazer da vida, não tinha como voltar atrás. Já estava feito.

Quando Tia Petinha morreu, Adolfinho ficou devastado. Passou um dia inteiro trancado no carro ouvindo o CD da Cher que a tia lhe dera no seu aniversário de quinze anos e cheirando uma caixa de sabonete Alma de Flores. Chorava convulsivamente e sentia o chão faltar-lhe sob os pés. Adelaide não se conformou e arrancou seu marido do carro à força, atiçando os sabonetes na terra do quintal e destruindo o CD da Cher em mil pedacinhos.

Adolfinho ficou calado assistindo à cena de choro engolido e ficou tudo por isso mesmo. Nunca mais se tocou no assunto…

No ano passado, Adelaide conheceu um malabarista e fugiu com o circo. Neto era um advogado de respeito e Délia estava casada com um desembargador. Adolfinho estava sozinho naquela casa gigantesca e sua vida resumia-se a ir pro consultório e assistir ao Jornal Nacional calçando pantufas. Não tinha amigos, irmãos, primos… A mãe já tinha falecido havia muitos anos, bem depois dos seus avós. Adolfinho estava completamente sozinho e o único contato que tinha com pessoas era no consultório.

A tal ponto, que ele sequer lembrava direito que seu nome era Adolfinho. Para todos os efeitos e por completa força do hábito, Adolfinho agora atendia pelo nome de Doutor. Ah, o seu avô teria ficado tão satisfeito!

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