Arsênio

Eu.

Eu sonhei que estava grávida. Grávida de um filho sem pai. Grávida de um filho meu, só meu e de ninguém mais.

Sonhei esta noite que entrava em trabalho de parto. Não tinha barriga grande, nada disso. Mas uma coisa pulsava dentro de mim e crescia e fazia as oras de nascer.

Eu não estava em casa… Eu não estava em minha cidade natal. Eu estava em um lugar distante, mas nem tanto. Não tinha ninguém efetivamente por perto.

Minha mãe acompanhava ao telefone, ora emocionada e preocupada. Com aquele jeito de minha mãe, dizia que me acalmasse e que tudo daria certo. Que estava feliz por mim.

Meu ônibus estava atrasado e eu não tinha quem me levasse ao hospital. Mas não precisava… Estava correndo tudo bem.

O sangue pingava pelos lugares, marcava por onde eu passava. A placenta já estava meio pendurada pra fora. Minha mãe acompanhava o processo de longe, por telefone. Ela queria estar por perto, queria que eu estivesse com ela. Por preocupação, mesmo. Mas nem queria tanto assim… Ela sabia – e eu mais ainda! – que aquele filho era meu e só meu. Que aquele processo era meu e de mais ninguém.

Algumas pessoas perguntavam de quem era o filho. Eu lembrava dos homens de minha vida e sabia que nenhum deles tinha qualquer coisa a ver com aquilo. Aquele filho era meu, só meu.

Algumas pessoas diziam que abortasse. Que parisse em uma piscina e desse para um boi comer. Parir numa piscina… Numa piscina…

Tinha água. Tinha água e tinha sangue. Tinha pedaços de mim saindo pelo meu corpo e tomando forma, tomando o mundo.

Eu tive um filho. Um filho meu, e só meu. Um filho feito de mim, de minha carne e minhas entranhas. Tive um filho que saiu de mim. Enfim.

Esta noite eu percebi. Esta noite sonhei e entendi. Eu tive um filho. Sim, tive sim. Um filho sem pai. Um filho sob a sombra de ninguém. Um filho sem ajuda efetiva, só o apoio dos que quero bem. Um parto difícil, porém indolor. Por vezes assustador, mas ainda assim indolor. E a sensação maravilhosa de que, enfim, construí.

Um filho. Não um bebê. Um filho.

Um filho meu.

Um filho Eu.

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