H2SO2

Natália e Felipe

Acho que Felipe nunca correu tanto na vida. Quisera estar vivendo um daqueles filmes onde sempre tem uma criancinha desatenta pronta para emprestar sua bicicleta ao mocinho no momento de pressa e desespero. Mas não tinha… Não tinha mesmo. Felipe olhava para todos os lados em busca de uma bicicleta, um patinete ou coisa que o valesse. Nadinha! Já estava até disposto a pagar dez reais de recompensa à alma caridosa que lhe emprestasse um meio mais rápido de locomoção que seus pés. Coitado! Estava tão desesperado que nem se deu conta que uma corrida de táxi da sua casa até o Café Caramelo não daria nem oito reais. Felipe continuou procurando uma bicicleta.

Se imaginou montando numa bicicleta rosa de cestinha e campainha muito menor que ele e pedalando em direção ao Café. Achou a cena muito ridícula, deu risada de si mesmo e continuou correndo. Ai, que saudade tinha daquele fusca!

Natália cruzou a Avenida Senador aflita. Andou mais uns dois quarteirões e reconheceu a entrada da rua Gérbera. A pousada abandonada ainda estava lá, bem na esquina, incrivelmente bem-conservada. Algumas vidraças quebradas e muita, muita poeira, mas a estrutura de madeira ainda parecia impecavelmente sólida. Como era possível?!? Hipnotizada, deu alguns passos em direção à antiga porta e puxou um pacotinho de lenços umedecidos de dentro da bolsa. Quando estava prestes a limpar um pedaço da vidraça pra espiar, percebeu a marca sutil de uma outra limpadela de vidro, bem mais antiga e lembrou-se de quando esteve ali pela primeira vez. Era como se tivesse voltado no tempo por um segundo… Lembrou de si mesma cheia de sonhos e esperanças e vazia de transtornos, manias e histerias. Recém chegada da pequena Milagres, Natália vira a pequena pousada e decidira que ainda reativaria aquele lugar. Sentindo um arrepio que subia pela coluna e eriçava os pelinhos da nuca, Natália ficou ali, imóvel, mãos na vidraça, absorta em suas próprias memórias….

Felipe adentrou a Gérbera como um raio. Quando chegasse ao Caramelo, beberia um litro e meio de água, certeza! Olhou o relógio. Faltavam exatamente quarenta e oito segundos para “daqui a doze minutos” e Felipe sentiu um aperto no estômago. Respirou tão fundo quanto pôde e correu ainda mais rápido. Enfim, o Café Caramelo! De um salto, adentrou o simpático estabelecimento e parou. Coluna ereta e peito estufado. Recomponha-se, Felipe! Olhou ao redor tentando, inutilmente, disfarçar a ansiedade. Nem sinal da moça bonita do vestido vermelho… Onde estaria ela?!? Será que tinha desistido? Será que tinha sido muito incisivo? Será que..?

– Felipe, você é uma anta, mesmo. – dizia para si – Claro que assustou a moça! Ela deve estar te achando um desesperado. E se ela tiver namorado? Claro que ela tem namorado! Uma mulher tão linda não pode estar sozinha… Aí o tal namorado ouviu a nossa conversa e não vai deixá-la vir. Ou pior! Vai vir até aqui no lugar dela e…

– Tá falando sozinho, Felipe?

Felipe deu um pulo.

– Ah! Oi, Dona Flora… – riu constrangido – Não exatamente… Quer dizer… Tava pensando alto, sabe..? É que… É que eu…

A gentil senhora deu uma gargalhada.

– Se acalme, moço! Deixa eu arrumar uma mesa pra você… Enquanto isso, vê se aproveita e vai no banheiro dar uma melhorada nessa cara, que tá horrível! Não tem um pente nessa mochila não? Não vai querer que a moça te veja nesse estado, né?

– Como a senhora sabe que…

– Ora, ora, menino! Parece até que acha mesmo que eu não sei das coisas da vida… Aiai, viu? Vai, vai no banheiro! Vou arrumar eu mesma uma mesa bem bonita pra você e sua namoradinha…. hihihihihi… Salete, leva o menino!

Felipe corou imediatamente e, antes que pudesse dizer que não era bem assim, que Natália não era sua namorada e que nem a conhecia direito e que blablabla, a mão pesada de Salete já o puxava pelo antebraço e o arremessava lavabo adentro.

Natália deu um suspiro assustado. Tinha entrado em absoluto estado de transe, esquecera completamente o que estava fazendo ali. Agora lembrara e sentiu-se uma completa idiota. Quanto tempo teria perdido ali?!? Saiu correndo o mais rápido que pôde e, enfim, alcançou o Café Caramelo. Parou um segundo na porta, respirou fundo e entrou. Olhou para a mesa do canto e viu Felipe. Sabia que era ele. Só podia ser ele… Tinha certeza absoluta. Olhou para ele e sorriu.

Mais uma conferida no cheiro do suvaco… Tudo sob controle. Felipe tamborilava os dedos na mesa nervosamente e nem vira Natália adentrar o Café. Quando levantou os olhos, sentiu milhares de borboletas borboleteando em seu estômago. Levantou a mão esquerda e acenou timidamente para Natália com um sorriso singelo no rosto. Natália respondeu ao aceno com simpatia e foi andando devagar em direção a Felipe. O rapaz estava completamente empasmecido. Ela era ainda mais linda do que conseguia se lembrar! Antes que pudesse levantar-se e oferecer-lhe uma cadeira, Natália já tinha sentado e largado a bolsa gigante no chão. O cheiro do sabonete Alma de Flores misturado ao de Natália era o aroma mais inebriante que já experimentara na vida…

Anúncios

5 comentários em “Natália e Felipe

  1. Nana, nao pude deixar de pensar besteira:

    “Sonhei esta noite que entrava em trabalho de parto. Não tinha barriga grande, nada disso. Mas uma coisa pulsava dentro de mim e crescia e fazia as oras de nascer.” – Um alien??

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s