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Natália e Felipe – Parte II

– Oi.

– Ehr… Oi.

– Felipe, não é?

O menino arregalou os olhos. Como ela poderia saber seu nome?!?

– Is… Isso… Felipe. E você é a…

– Natália!!! Há quanto tempo não te vejo por aqui!!!

Dona Flora vinha trazendo duas xícaras de capuccino, uma delas com pouco mais de meio quilo de chantilly por cima. Olhava pros pombinhos na mesa com um sorriso de canto de boca. A velha Salete observava tudo de lá de trás do balcão. Nada mais era importante. Natália e Felipe haviam se encontrado.

– Brigada, Dona Flora. – disse Natália sorridente. – A senhora nunca esquece, não é?

– Só os clientes especiais, minha filha… – disse a velha senhora enquanto deixava as crianças a sós.

– Não esquece de quê?

– Ah. Que eu gosto de capuccino com duplo chantilly. E com um salpico de canela por baixo do chantilly, direto no café. – disse cavocando o creme branco com a colher e provando do topo com a pontinha do dedo.

– Ah… O meu é normal… Só que com adoçante em vez de açúcar.

– Adoçante? – Natália parou tudo o que estava fazendo e arregalou os olhos.

– É. Sei lá. Dizem que é melhor.

Felipe escorreu um pouco pela cadeira. Os ombros encolhidos e as mãos cruzadas entre os joelhos… Sentiu o dedinho esquerdo esbarrar na mochila.

– Ai, eu nem gosto de adoçante. Tem gosto de remédio, mas não cura nada. Sei lá, acho que aquilo.. Isso aí deve ser super tóxico para o organismo. Deve ser cancerígeno. Certeza que é. É tanta química que deve entrar corroendo no seu estômago e… Do que você está rindo?!?

Felipe contorcia-se de tanto gargalhar. Ria como há muito não ria. Metade de nervoso, metade de imaginar o terrível-monstro-químico-do-adoçante-dietético devorando seu corpo de dentro pra fora. Partilhou sua imagem com Natália e ela também gargalhou. Adoraram-se desde o primeiro instante.

Felipe entregou o celular a Natália, e ela já nem lembrava que o tal celular existia. Contou que a viu na rua aquele dia, em frente à lanchonete do Seu Ademário. Passara por ela na rua e tinham esbarrado ombro com ombro. Disse também que poucos metros depois sentiu um projétil batendo em sua batata da perna e se espatifando na poça d’água com sabão. Descreveu-se largando a mochila na poça d’água e se jogando no chão pra pegar o celular. Que quando, enfim, conseguiu recuperá-lo na corredeira, a moça já tinha sumido. A viu virar a esquina, mas não conseguiu alcançá-la. Correu para casa e tratou de consertar o celular. Não tinha nenhum número escrito “mãe” ou “casa”, então o jeito era esperá-la ligar.

Natália ficou agradecida e ligeiramente enrubescida com a história de Felipe. Riu da interpretação exagerada e do jeito que ele consertava os óculos. Conversaram por horas e horas e horas. Conversaram até o Caramelo fechar e passearam pela cidade e cruzaram a ponte do Rio Senador sentindo a brisa fresca daquela noite úmida. Brincaram de pega-pega e apostaram corrida da Rua Conde até a Travessa Francisco de Assis. Rodopiaram até ver o céu estrelado girar. Quase, quase se beijaram. Mas os dois, bobos e tímidos, baixaram a cabeça e coraram. Um bonde passou e o cobrador balançou uma sineta e falou qualquer coisa sobre o casalzinho e como o amor é lindo. Ainda passearam por horas e horas e contaram de suas vidas e suas infâncias. Felipe fez para Natália as mágicas mais fantásticas que sabia. Era um pavão abrindo a cauda. E Natália se encantou por aquele nerdezinho-engenheiro-mágico que parecia, como ela, ter vindo de outro lugar.

Não de outra cidade. Não mesmo. Mas de outro, ooooutro lugar.

…E então, amanheceu. E Felipe acordou Natália, que dormia esparramada na areia da praia com a cabeça em seu colo. Os cabelos dela tinham um cheiro maravilhoso e ele estava inebriado de brincar com os fios ora castanhos, ora doirados dos cabelos de Natália. Acompanhou a moça até a porta de casa e despediu-se com um aceno e um sorrisinho tímido.

Natália entrou em casa e abraçou o gato gordo e cinzento. Dormiu no sofá.

Felipe voltou caminhando a um palmo e meio de distância do chão. Sentiu o cheiro de pão fresquinho e resolveu levar pro café da manhã. Tomou um café reforçado e pegou a bicicleta pra dar uma volta. Quando voltou, umas dez e tanto da manhã, viu as malas de Fernanda arrumadas na sala.

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Um comentário em “Natália e Felipe – Parte II

  1. Demorou mas não faltou…. Já tinha sentido falta e até pensei que não voltaria a encontrar esse pessoal tão cedo….Ainda bem que eles estão de volta para a genbte xeretar a vida deles.

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