SIC TRANSIT

Da chegada em Moscovo.

Antes de mais nada, peço um milhão de desculpas por ter demorado tanto em dar notícia!

É que a galera aqui em Moscou é meio pancada nesse lance de dormir. Eles não o fazem (ao menos, não no verão) e a gente que é acostumado a dormir de noite e ficar acordado de dia fica meio desbaratinado com esse lance de o sol só dar uma folga de meia-noite às três da manhã.

O jetlag também foi brutal e minha primeira semana foi um misto de estafa com corpo não funcionando direito.

À saga!

Mandei as informações do vôo com quatro dias de antecedência, com o número, a companhia e o horário de todas as conexões.

Ainda no aeroporto de Salvador, na fila do embarque, recebi um sms mandando chegar no aeroporto de Moscou e pegar um tal de um trem. O aeroporto fica fora da cidade, pelo que entendi, e o tal do trem me levaria até Moscou propriamente dita. Perguntava também na mensagem se meu celular funcionaria na Rússia. Não. Pré-pago não funciona. Falei que tinha providenciado um celular desbloqueado e compraria um SIM assim que chegasse no aeroporto. Ela disse que não vendia chip no aeroporto e que eu teria que chegar à cidade para fazê-lo.

Trouxe comigo uma mala média (mas bem pesada), uma mala pequena, uma mochila e uma bolsa média a tira-colo. Ainda tinha um casaco, um travesseirinho, meus sapatos de palhaço (que evidentemente não cabiam na mala) e uma bolsa com o notebook. A própria muambeira!

A Gol de Salvador não fazia a menor idéia do que fazer com minha bagagem, pois até Amsterdam eu poderia levar duas malas, mas a partir dali, supostamente, eu só poderia despachar uma. O que as moçoilas do guichê me sugeriram foi que as malas fossem só até Amsterdam, onde eu deveria retirá-las e fazer o check-in novamente. Aí eu despacharia uma e levaria uma na mão. Se não o fizesse, elas disseram, talvez segurassem uma das malas e a dariam por extraviada. Beleza…

Pra minha sorte, deu na telha de tocar no assunto de novo em São Paulo e o atendente falou que não era nada disso! Se eu pegasse as malas em Amsterdam pra despachar de novo, aí sim eu teria que pagar excesso, pois eles provavelmente não me permitiriam embarcar com tantos volumes de mão. Aí ele mudou o ticket e disse que tava mandando tudo direto pra Moscou.

Rumei a Amsterdam no avião mais chique (e craudiado) que peguei na minha vida. Enorme, com direito a toalhinha quente antes da merenda… E gente saindo pelo ladrão, bebê chorando, o escambau! Onze horas naquele inferno?!? O coelho! Ainda bem que eu providenciei meus dois comprimidos de Rivotril – um pra ida, outro pra volta. Dormi o vôo inteiro.

Desconfio que o vôo deu uma atrasada, pois quando enfim cheguei em Amsterdam, já tava em cima da hora de pegar a conexão. O aeroporto é gigantesco mas, ainda bem, tem placa em inglês pra tudo quanto é lado! A tripulação inteira do meu avião era britânica, então não tive problema em falar com eles também, que me indicaram o caminho pra conexão. Aproveitaram pra me dar um conselho: veste tudo isso aí, enfia uma bolsa dentro da outra, dá seus pulos! O avião que você vai pegar é pequeno e eles provavelmente não vão deixar embarcar com tanta coisa.

Já pensou se ainda tivesse mais uma mala?!?!?!?!?

Compactei o máximo que pude e consegui embarcar numa boa. O aeroporto inteiro tem aquelas esteiras rolantes e correr em cima delas tornou possível a minha chegada no portão de embarque em cima da hora de entrar. Entrei no avião temendo estar deixando toda minha bagagem pra trás, mas resolvi confiar no rapaz paulistano. Ele parecia saber o que estava fazendo…

O vôo deu mais uma atrasada antes de sair de Amsterdam, coisa de uma hora ou duas. Cheguei em Moscou ainda era dia claro (não que isso significasse muita coisa, como vim a descobrir depois) e minha missão era resgatar minhas malas e pegar o diabo do trem. Sim, o rapaz paulistano sabia o que estava fazendo!  O resto dos funcionários, no entanto, não pareciam saber tanto assim.

Sim, minha mala chegou. Chegaram, as duas. A pequena perfeita, do jeito que eu despachei… E a outra completamente destruída. Quebraram tanto a alça quanto o carrinho da mala. Dei mole, tava pesada demais…. Claro que eles não iam carregar com cuidado!

Pus tudo em cima dum carrinho do aeroporto e fui caçar o tal do trem. “Opa… Cadê as placas deste aeroporto?!?!”, pensei cá com meus botões.

Tudo em russo.

Ninguém foi me buscar, me mandaram ir pruma estação de trem. Sozinha, analfabeta e sem falar russo, vejam bem. “Fodeu.”, pensei.

Ninguém falava inglês também.

Enfim, o primeiro abençoado que conseguia arranhar algum inglês! Era um desses pilantrosos que fica oferecendo táxi mais caro pros turistas. Olha, não vou mentir, tava até tentada a aceitar a proposta do rapaz. Mas de que ia adiantar, se eu não tinha um endereçozinho sequer? “Moço, me leva pra…” Não dava.

Disse pra ele que não rolava, que tinha que pegar o trem pois as pessoas me esperavam lá. Mesmo assim, ele me ajudou! Me mostrou onde comprar um chip moscovita e onde cambiar algum dinheiro, já que o rapaz do chip não aceitava Visa Travel Money. Ainda bem que ele me ajudou, pois eu só tinha Euro na mão. Como é que eu ia pagar o tal do trem?!?

Enfim, pude ligar pra tal da Elena (a menina que tinha me mandado a mensagem). Ela disse que estava lá na estação de trem esperando, mas que ia embora. “Iana vai te esperar, pegaí o número dela!”

Lá vai Silvana, agora, caçar o tal do trem… Doida pra fumar um cigarro, mas segurando a vontade há mais de 24h, segurei mais um cadinho. Não queria deixar ninguém esperando.

E as placas continuavam em russo.

Avistei de longe um pequeno grupo vestindo uniforme de tripulação. “Opa! Tripulação certeza fala inglês!!”. Não que fosse lá aquele inglês fluente, mas falavam. O suficiente pra entender “Express train to Moscow!” e apontar na direção que eu deveria seguir. Uma escada rolante e enfim, a primeira placa bilíngüe. Escada rolante. Nenhum elevador à vista. “Ok. O carrinho fica.”

Como pobre tem mais é que se foder, é claro que não tinha carrinho no andar de cima. Lá vai Silvana compactar mais ainda e fazer o impossível pra carregar todas aquelas tralhas e mais uma mala pesada, sem alça e sem rodinha. Comecei a andar (quase rastejar) pelos gigantescos corredores do aeroporto, seguindo as placas de “train to Moscow”. Parecia que não acabava mais…. Enfim, passei por umas cabines de raio x com uma fila gigantesca pra entrar. “Opa! Cheguei na saída!”

Ah, bobinha…. Outro corredor gigantesco!

Eu já estava pingando de suor e o carrinho da mala tinha quebrado de vez. Fui empurrando com o pé a mala grande (era média no começo da história, mas naquela hora ela já era gigante) enquanto me equilibrava com o resto. Toma-lhe a andar!

Telefone toca. Iana perguntando cadê eu. “Tô tentando achar o trem, linda! Minha mala quebrou, tá foda, esse aeroporto é enorme, ninguém fala inglês, SOCOROROROR!”

“Vou te buscar!”, ela disse. Antes mesmo que eu pudesse pensar “ALELUIA!”, veio a pergunta: “onde você está?”

Eu nem desconfiava. Tentei me localizar pelas placas, mas não rolou. Tinha uma moça numa lojinha de flores e eu não contei conversa: passei o telefone pra ela. “Perguntaí pra moça que fala russo, ela te explica e aí tu me diz o que fazer.” Iana então me mandou ir pro portão B (ou D, não lembro mais) e a moça gesticulou o caminho: voltar pelo corredor gigante e virar à esquerda.

Voltei, né?

Voltei e cheguei no tal do raio x. A tia russa (dessas loiras do cabelo bem curtinho típica de filme de russo malvado) só fez apontar pro fim da fila gigante e dizer que eu tinha que ir pra lá. “Mas eu acabei de sair daí!!” e ela continuava apontando e falando russo. Tentei perguntar se ela falava inglês, tentei perguntar se alguém falava inglês, tentei pedir socorro… A cara dela só ia ficando cada vez mais feia e ela falando cada vez mais russo e apontando. Aí virou a cara. “Filha duma….”

Comecei a chorar. Já tava puta dos cornos e fui levando a mala na base da bicuda. Liguei pra Iana de novo e ela disse que ia me buscar no lugar que eu tava antes, em frente ao Book Cafe, lugar onde tinha encontrado a moça das flores. Do céu, veio um anjo e pegou os restos de minha mala e saiu carregando. Deixou bem em frente ao Book Cafe, onde eu entrei e pedi uma cerveja, da maior que tiver, urgente. Aleluia, Senhor! O atendente falava inglês! E podia fumar lá dentro! E ele ainda me deu biscoitinhos!!! Fui acalmando e respirando, fumando e esperando. Agora ia dar tudo certo…

Deu a hora de a loja fechar e o adorável rapaz me deixou terminar meu último cigarro antes de gentilissimamente me pôr pra fora. Pouco tempo depois, Iana me resgatou.

Continua…

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