SIC TRANSIT

Felicidade é… orégano fresco e queijo parmesão!

Noite de sábado.

Daí que eu e a Húngara, depois de um dia inteiro de prostração ressaquística (interrompido apenas por uma breve visita de 10 lei ao refeitório dos estudantes – onde meu almoço foi meio quilo de batata frita, duas fatias de pão, um cadinho de molho de tomate e meio copo de gordura fantasiado de sopa fria gentilmente conduzidos por uma garrafinha de Coca-Cola) e uma boa hora e meia de mimimi com o digníssimo Fábio De’Rose (leia abaixo), resolvi que AI, JÁ DEU, FODA-SE, VOU PASSEAR, QUERO PIZZA, ESSE CARALHO!

Daí fomos eu e a Húngara pra pizzaria da esquina, que se chama Casa Vikinglor. Tá que o nome “Vikinglor” e os desenhos de guerreiros nórdicos e embarcações com pontas retorcidas não remetia muito à idéia de pizzaria, mas com o nome “pizza” escrito na fachada em três caligrafias diferentes, tínhamos um nível razoável de certeza de que tratava-se de uma pizzaria. O cardápio de papel em forma de jogo americano contribuiu bastante para a constatação de que não apenas se tratava de uma pizzaria, mas uma pizzaria barata, apesar do certo ar de pretensão do lugar…

A Húngara já tava puta e frustrada, bichinha, que não conseguia ler palavra do cardápio. Eu li “peixe”, “frango”, “porco”, “salada”… Mas nada de pizza. “Tá errado, issaqui…”

Garçonete apareceu e eu toda bonita larguei meu melhor romeno: “Hay pizza?”
“Nu,  pizza nu.” – cara de desprezo.

É, não tinha. E desconfio que os dizeres na fachada eram algo tipo “Coma algo diferente de PIZZA porque pizza é uma coisa do mal e só pessoas infames comem Pizza.”, porque a tia só faltou cuspir na cara da gente ao ouvir tão famigerada palavra. Olha, mentira, mas tenho certeza que na cabeça dela, ela fez isso. Porque dizer “pizza” naquele lugar foi tipo xingar a mãe do Papa, assim, na moral.

…Fomo embora, né?

Mas acontece que aqui é Hasdeu e o que mais tem é restaurante student friendly, porque na vizinhança só tem faculdade e dormitório estudantil. Ah, e boteco. Boteco tem uma porrada! E café. E tudo o mais que você imaginar. E, é claro, tem pizzaria.

Menos de uma quadra depois abaixo do Declive da Perdição (como eu carinhosamente batizei nossa adorável ladeirinha, The Slope of Doom – que, conjuntamente com a Escadaria da Morte [Stairway of Death] e o Parque da Condenação [Park of Damnation], formam os únicos possíveis acessos ao nosso dormitório), avistamos uma linda placa onde tinha escrito “pizzeria”, uma vitrina linda cheia de fotos de pizzas de vários sabores e os dizeres “pizza”, “estudante” e “10 lei” belìssimamente afixados numa folha de papel vagabundo colado com durex na porta. “Opa! É aqui mesmo!”.

Coisa linda. Pizza delicinha, garçonete english speaker, me ensinou pela zilionésima vez a falar “por favor” em romeno (que eu pedi pr’ela me ensinar, viu, gente?), Coca-Cola não muito gelada mas com direito a copo de gelo… E dois periquitos na porta do banheiro, que me fizeram segurar o pipi e a vontade de lavar a mão até o final do passeio. Mas é nenhuma! Pizza gostosa de 10 lei meia noite e tal não é pra qualquer um e precisávamos celebrar a ocasião!

– Bó dar uma volta?

– Bó.

Fomos.

Andamos pra caralho, até o centro, até o rio, até a igreja, até a casa do caralho…

– Porra, tá frio. Bó pra casa?

– Bó.

Voltamos.

Aí a Húngara foi me ensinar o caminho de volta pelo Parque da Condenação (também conhecido como Faculdade de Geografia), que eu não conhecia ainda e eis que uma figurinha surge do nada correndo em minha direção. Não sei se teve alguma coisa a ver com o figurino, mas acho que ela se identificou…

Eu e minha amiguinha reclamona. :)
Eu e minha amiguinha reclamona. 🙂

Catei ela no braço e fiz um denguinho. Andei um cadinho e fui soltar a bichana no chão. Ela garrou no meu braço e olhou pra minha cara. Começou a resmungar. Tentei pegar de novo, mas ela saiu “minhau, minhau, minhau”, resmungando e olhando pra trás, meio que guiando e meio que seguindo. E meio reclamando. Bichinha… Neve fria do caralho. Me liguei que ela tava tentando arrumar um lugar quentinho, mas não estava acontecendo. “Venha cá, venha, miserinha!”. Ela veio. Catei a bichinha no colo de novo, enfiei ela mais ou menos dentro do casaco e ela ligou o motorzinho. Bichinha… Morrendo de frio.

Trouxe ela comigo até logo depois do dormitório, que tem uma área que é cheia de gato e, se tem um monte de gato, é porque tem abrigo e comida em algum lugar. Ela veio resmungando a maior parte do caminho mas, finalmente, se aquietou quando viu os outros felinos e saiu espreitando em busca de um canto quentinho. Bichinha…

Voltamos pra casa. Três e pau da manhã.

* * *

Acordamos naquela vibe dominical, vontade de fazer nada, porra nenhuma pra comer… Missão du jour: fazer o mercado que a gente enrolou e não fez ontem. Se picamo pro Auchan (que na Rússia é Ашан e isso super me confundiu), rezando pro guardinha não aparecer no buzão… É porque funciona assim: tu compra o bilhete na casinha que fica no ponto por 3,50 lei, entra no buzu, enfia na geringonça de metal e a geringonça faz uma quantidade X de buraquinhos numa posição Z, Y ou W do bilhetinho. Cada bilhetinho vale duas passagi, então além do cuidado de APERTAR AQUELA MERDA DIREITO (porque senão só marca mais ou menos e não fura direito), tem que cuidar pra não furar no meio demais ou na ponta demais ou de bandinha demais ou… Porque um lado cê esburaca na ida e o outro na volta. E panz.
Aí pronto, tu fura a paradinha guarda aquele papelzinho pra sempre, porque se o guardinha entrar no buzu e tu não tiver o papelzinho furado na mesma combinação de furinhos daquele ônibus, a multa custa 25 lei.

– Mas produção, e se eu não tiver os vintecinco lei naquela hora?

Aí você tem duas opções: ou entrega seus documentos e endereço e recebe uma multa de 100 lei em casa… ou corre. E, cá entre nós, correr nas calçadas congeladas com uma fina camada de neve por cima do gelo escorregadio não é legal.
Vai por mim. Não. É. Legal.

– Mas não tem outro jeito?

Rapaz, tem. O Chefe falou que, quando rolou com ele, ele chorou pro guardinha naquelas de “eu sou estudante, desempregado, tenho que comprar livro, material, não tenho dinheiro, eu pudia tá robano, eu pudia tá matano, tô aqui pegano transporte pra ir pra aula, coitado de mim…” 

– Tá. E tu tem quanto aí, moleque?

– Dez conto.

– Serve. Passa pra cá!

..e, claro, tu sempre pode bancar o turista imbecil, começar a chorar, pedir pra ligar pra embaixada, pedir pra ligar pra mãe, pedir pra falar com o presidente, simular um desmaio e dizer que não sabia de nada. Rezam as lendas que, em geral, eles preferem evitar o atrito e deixam você ir embora numa boa. Vai saber..?

Pra ser ainda mais divertido, depois de certos horários a cabine onde vende bilhete fecha e o fim de semana inteiro está inserido na categoria “certos horários”. Pra melhorar, é claro, o motorista do buzu não vende bilhetinho!

Então, das duas uma: ou tu tem um cartãozinho de transporte (o que é o meu caso, mas que só serve pro número 25) ou… reza. Pra minha sorte, nosso buzão era o 25. Pro azar da Húngara, ela não tem cartãozinho nenhum. Nem bilhetinho. Nem porra nenhuma.

…Mas chegamos no Iulius Mall, sede do Auchan, ilesas e sem guardinha nenhum entrar no buzu. xD

E aí, meus amigos, foi pura felicidade! Porque eu fiz A FESTA! Comprei pão com sementinha, queijo, salame, leite com nescau, prato, garfo, faca, colher, caneca de louça, panela, pano de chão, xampu, creme rinse, pasta de dente……. Só felicidade! Compramos cenoura, batata, alho, azeite, pimentão, berinjela… COMIDA, tá ligado?!?

É que o Auchan (ou Axan, como era na minha cabeça da transliteração direta do russo) é um mercadão grandão e muito mais barato que todos os outros mercados grandes (leia-se: uma loja do Carrefour) da cidade. De resto, só tem lojinha/mercadinho, onde tudo é mais caro e tu tem que sair catando de uma em uma pra achar as coisas que tu quer. Desodorante aqui, pasta de dente acolá, detergente naquele outro…. Porque às vezes tu quer e simplesmente… Não tem. Ou tem, mas acabou.

…ou tu tá achando que isso só acontece na Bahia?!?

Há.

Dos luxos que eu comprei e não me arrependo: cogumelo (de comer, viu, seus porras?); queijo parmesão e gorgonzola; orégano, manjericão e alecrim (tudo fresco, no vasinho!); ração a granel pros meus amigos gatinhos.

Dos luxos que eu comprei e me arrependo: nada. Há!

Dos luxos que eu não comprei e quase me arrependo: um tobogã (leia-se: caixote com cordinha) de plástico vermelho de 50 lei MUI-TO-LE-GAL! que, do fundo do coração, seria o meio de transporte perfeito pra descer tanto a Ladeira da Perdição quanto o Parque da Condenação, pra passear no Jardim Botânico e pra ser feliz pra sempre a vida inteira. Mas a Húngara puxou a minha orelha e meique nundeixou, eu lembrei de minha mãe me dando esporro e deixei pra lá. Vou ver se arrumo um papelão mesmo, porque a gente que é da periferia tem que se virar com o que pode, né, mano?

(…Mas se eu sonhar com ele esta noite considerarei um sinal e voltarei lá pra buscar, ah se vou!)

Na saída do mercado ainda descobri que rola um rinque de patinação no gelo e, pra ser ainda mais bonito, o radinho do shops tava tocando DANZA KUDUROOOOO!!!!

Morri.

Lá vai a imbecil largar todas as sacolas em cima do banquinho e ficar rebolando e jogando os braços pra cima enquanto a Húngara quase tinha uma síncope de tanto dar risada. Como eu sou da resistência, acabei fazendo ela dar uns passinhos, fizemos a dança do robô e pegamos um táxi pra casa, que a gente é pheena (e não é puta de subir aquela escadaria DESGRAÇADA cheia de sacola na mão).

Subi as escadas do dorm cantando “I feel pretty, oh so pretty and witty and gaaaaay! And I pityyyyy any girl who isn’t me todaaaaaay…!”, porque, né? Eu tenho um prato de louça! Há.

Chegamos em segurança e, pela primeira vez, esquentei à vera a barriga no fogão. Fiz um sopão daqueles delícia, bem cremoso, com direito a azeite extra virgem e um monte de vitaminas de origem vegetal, ao som de Loca People e Fergalicious.

Comemos ouvindo jazz de elevador e tomando suco de caixinha de frutas silvestres.

Cês tão por fora… A verdadeira felicidade tá é nessas coisinhas pequenas da vida. Besta é tu, que taí tentando achar ovo de ouro em cu de galinha véia. VÃO VIVER, SEUS PORRAS!

P.S.: Iza, se tu acha que sair pra comprar um pão aí é uma dificuldade monstra, eu só tenho uma coisa a te dizer: vá tomar no cu.
Te amo! Tô com saudade. Vem escorregar com a gente! ;D
(para entender, leia http://omisteriodoplaneta.wordpress.com/2012/02/05/comprando-um-pao)

P.P.S: Eis a Escadaria da Morte!

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5 comentários em “Felicidade é… orégano fresco e queijo parmesão!

  1. 1) Eu não acho que é uma dificuldade monstra. Tanto é que vou quase todo dia. Compro cada dia um tiquinho. Tava de brinks.

    2) É… Felicidade ta nessas pequenas coisas. Besta é tu.

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