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A Húngara

A Húngara tem um nome. É Katalin. Mais conhecida como Kóti. Não Káti nem Kôti. Kóti. É a pronúncia certa em húngaro.

E a Húngara é uma pessoa do caralho.

Nosso primeiro contato, como eu já comentei em algum momento, foi completamente bizarro e, depois de três semanas e tal, estávamos comentando o ponto de vista de cada uma da situação.

Minha versão: tava eu dormindo sozinha e bonita no quarto, com dois travesseiros, dois lençóis e minhas coisas espalhadas pelo aposento inteiro, porque um(a) estudante iria chegar da Hungria em uma semana pra dividir o quarto comigo. No meio do meu sono de beleza, a porta se abriu e eu acordei assustada. Uma moça branquela e comprida se embananava com as malas na porta do quarto e uma tia muito da brucutu falava coisas em um idioma esquisito (provavelmente romeno) e a moça acenava com a cabeça e, na minha sonolência, eu entendi que era um diálogo. (Hoje, olhando pra trás, vejo que a tia tava só falando e ela balançando a cabeça com aquele sorrisinho amarelo de “aham, Cláudia, tô entendendo tudo, já podemos até começar a discutir Tolstói, haha”).

– Oi. Você fala inglês?

– Falo. Oi. Desculpa! Não queria te acordar.

– O que… Quem… O que tá acont…. Que horas são?

– Ah, hum… Umas oito e meia, mais ou menos.

Enquanto a tia brucutu tomava meu travesseiro e dizia coisas provavelmente desagradáveis em romeno, decidi que era cedo demais pra me preocupar com o que tava acontecendo e que o melhor que eu poderia era voltar a dormir e… zzzzz”

Versão dela: “Minha tia, agilize, quem se importa, passei horas no buzu, tô com sono e

É. Mais ou menos por aí.

Foi uma sexta-feira de coma pras duas: Eu, depois de um longo e espremido vôo Madrid-Cluj que me deixou aqui duas e tal da manhã e ela, bichinha, depois de vir todo o caminho de Budapeste até aqui de busão.* (E isto por si só dispensa maiores comentários, porque, né?)

Depois de um dia inteiro em coma é que o primeiro diálogo de verdade foi acontecer e eu fui entender que ela que era a tal estudante húngara que ia chegar, que foi maluquice da tia da pensão, que “Poxa, seu lençol, malz ae… E, ah!, deixa eu liberar as prateleiras e o armário pra você, foi mal, desculpaê…” e “que nada, tá massa, o quarto tá lindo, uma prateleira só tá bão”, “Quéisso, fia! Perainda, vamo dividir issaê direito”, “massa”, “massa”; nomes, veio fazer que porra na Romênia, todo aquele protocolo…

– Quantos anos você tem?

– Ah, na verdade eu sou meio velha, já.

– Sim, velha quanto?

– 27.

– Ô, malz aê, vovó! Eu tenho 26, cabeça, relaxe.

Achei a moça gente boa e tal, mas apaixonei de verdade quando a nerdice mútua foi começando a aparecer e os diálogos começaram a ir pra linha do…

– Tu manja Terry Pratchett?

– CLARO!! Já leu Mort? Meu favorito de todos!

…ou….

– Tem um livro que chama O Guia do Mochileiro das Galáxias e…

– …porra, claro eu eu conheço!

– Leu os cinco?

– CLARO! Adoro aquela parte que…

Fodeu, né? Melhores amigas pra sempre.

Olha, te falar. Vai ser difícil na vida trombar assim, por acaso, com uma pessoa tão foda e tão parecida comigo, que dirá pra dividir um quarto! E, pra facilitar nossas vidas, ela tem uma personalidade mais de boa, sossegada a maior parte do tempo e tá de boa com quase tudo. Eu tô num trabalho de evolução espiritual pra ficar de boa com tudo também e, na verdade, cada vez eu tô mais de boa com todas as coisas. E o fato de ela não se incomodar com minhas bagunças (apesar de ser infinitamente mais organizada que eu), por exemplo, me deixa absolutamente mais de boa e sossegada.

Claro, ela tem as baguncices dela também, mas nem de longe chega na zona que eu faço. E aí eu fico resmungando…

– Porra, isto aqui tá uma zona. Que horror. Eu preciso arrumar issaí, ó minha cama, que miséra.

– Que nada, rapaz. Tá tão mal assim não. Eu consigo ver um sistema, aí, ó.

– Não, pô. Este quarto tá uma bagunça horrorosa e é tudo coisa minha espalhada, pqp! Preciso tomar vergonha na cara.

– Não, rapaz… Tem bagunça minha também! Ó, eu deixei este prato sujo aqui, por exemplo.

E sem sarcasmo nem ironia. Ele é gente boa assim mesmo!

E é inteligente pra caralho, bonita, engraçada e cheia de cultura. Vinte e sete anos de idade, vejam bem!, e já é formada em História e Língua Húngara e taqui pesquisando pro PhD dela, que é sobre estudantes transilvânios do século 17 que foram estudar nos Países Baixos patrocinados por nobres e tal. (Olha, o tema é massa – e bem mais compelxo que este pálido resumo – e ela já me explicou um monte sobre essas coisas – e outras tantas mais, pra falar a verdade.)

Pra garantir o feijão, a moça é professora de história de adolescentes mais ou menos da mesma idade que os alunos que eu tenho que ensinar aqui, de sétima e oitava série. E ela super tem não só disposição e boa vontade, mas também curiosidade e interesse pra caralho no meu processo com os moleques e me ajuda absurdamente em tudo; a desenvolver as tarefas, a entender os meninos, pede pra ver minhas aulas, morre de curiosidade sobre a cultura Brasileira, discute, traça paralelos… Não obstante, rola um cuidado mútuo de uma querer garantir que a outra tá bem, saudável, bem alimentada, descansada, bem dormida e evoluída nos trabalhos e pesquisas. É lindo, lindo mesmo. Quer dizer, ganhei na loteria, né?

…Afinal, quando mais eu ia arrumar uma companheira de quarto tão disposta a desvendar o enigma da laranja-tangerina e iria assumir como missão iluminar as pessoas da Hungria (já começou com a família toda, pra falar a verdade) de que elas nunca comeram laranja de verdade e me dar como missão comprar uma laranja na Espanha pra checar se é filhadaputagem espanhola ou se todos os Europeus estão sendo enganados, mesmo, porque as “laranjas” do Leste Europeu, em geral, vêm da Espanha. Não é lindo, gente? Não é de ficar emocionado?!?

Ganhei uma irmã e que, pra melhorar, tem um irmão nerd meio tímido ex-Hard Rocker e hoje trabalhador-sério-que-usa-terno (e bem bonitinho, por sinal), uma mãe adorável que sempre manda alô pra mim quando fala com ela e já me convocou pra visitá-los em Budapeste e ajudou a gente pela webcam a separar as roupas pra lavanderia sem manchar nada, uma avó que já prometeu fazer mil e doze pratos deliciosos típicos húngaros quando eu for lá e um pai que, apesar de não falar muito, fez questão de ir até a frente do computador no dia que eu fui “formalmente” apresentada a toda a família. Quer dizer, né? É muito amor pruma pessoa só! ^^

…Só que A Húngara vai embora. ;( Vai embora este fim de semana agora, que a pesquisa dela por aqui acaba e ela fica em casa dez dias e segue pra Bélgica, pra pesquisar mais.

E eu vou sentir falta de ficar batendo papo na cozinha até umas horas enquanto faço meus experimentos e ela acha tudo delicioso. Vou sentir falta de contar minhas histórias de como eu derrubei uma garrafa de água em cima do meu computador na escola e ouvir as histórias dela de como ela termina as aulas parecendo um fantasma, toda coberta de giz. Vou sentir falta de olhar palavras no dicionário só pra descobrir o quê exatamente elas significam, apesar de já sabermos as idéias e de pesquisar imagens de frutas, verduras, animais e comidas esquisitas na internet. Vou sentir falta de tentar aprender húngaro e ensinar um pouco de português, de ter uma companhia super entusiasmada pra assistir Vamp e de fazer traduções simultâneas dos diálogos mais importantes; de discutir a semântica das palavras; de aprender sobre o comunismo, a idade média, os hábitos bizarros do Leste Europeu, dos impérios de outrora; de ensinar coisas sobre o Brasil que nenhum estrangeiro jamais ousaria perguntar porque são perguntas relevantes sobre coisas da história, da cultura, dos hábitos e do dia-a-dia e não coisas estúpidas relacionadas a futebol, carnaval e mulheres devassas; vou sentir falta de ouvir sobre os desenhos animados soviéticos e comentar sobre os os desenhos americanos que todo mundo conhece e ama desde a infância; de fazer análise psicológica dos personagens do Ursinho Puff; de discutir minhas teorias bizarras sobre evolucionismo; de dar risada da estupidez humana; de chorar a estupidez humana; de falar sobre garotos, roupas, sapatos e maquiagem; de dividir a conta de supermercado e explicar por a mais bê que não é justo dividir meio-a-meio porque ela não precisa nem deve e eu não vou permitir que ela pague metade do meu shampoo, meu condicionador, meu prato e meu desodorante; de resgatar gatos no meio da madrugada e alimentá-los nos dias seguintes; de dar risada das emissões gasosas involuntárias (ou nem tanto) em plena mesa de jantar e justificar que, em alguma cultura, isso é sinal de educação e não fazê-lo é absolutamente desrespeitoso; de pedir desculpa por ter deixado resto de cocô na parede da privada e ouvir de volta um “ah! ahahaha, eu tinha certeza que era meu!”; de passar o dia inteiro de ressaca e decidir comer uma pizza no final; de perguntar “em que parte você tá?” cada vez que ela dá risada quando tá lendo o “Como Quebrar Uma Maldição de Dragão” que eu dei pra ela; de……….

….De Kóti. ;(

Vou sentir muita falta de Kóti.

E, mesmo que a gente se veja depois, que eu a visite em Budapeste um fim de semanazinho qualquer (porque ela logo vai pra Bélgica, como eu falei) e que ela consiga juntar uma graninha (ou uma desculpa pra arrumar uma bolsa) pra passar uns tempos no Brasil… Mesmo assim, não vai ser a mesma coisa. Não mesmo!

É que depois de um mês de convivência intensiva dividindo o mesmo quarto e o mesmo banheiro, a coisa vira tipo um casamento. Aliás, é exatamente o que a gente tem: um casamento.

Dividimos o teto, dividimos as despesas, conversamos coisas que ninguém mais entende, discutimos coisas imbecis na frente dos outros e pedimos a opinião deles pra se meter na conversa, eu cozinho e ela lava os pratos, ela limpa o quarto e eu digo que vou limpar o banheiro mas acabo procrastinando, nos conhecemos como se fosse há anos, peidamos e arrotamos uma na frente da outra e não fazemos sexo. Quer coisa mais parecida com casamento que isto?

E é um casamento feliz, devo dizer.

Fico até com medo de conhecer o irmão dela, porque pela descrição ele é exatamete meu número de sapato e trair a esposa com o cunhado vai ser terrível e tragicamente tenso. AHAHAHHAHAHAH! Brincadeira. Nem conheço o moço, não dá pra sar tirando conclusões! 😉

Mas, porra! Quando no mundo eu vou achar uma roomate mais legal que ela..?

Du-vi-de-o-dó.

Aliás, espero mesmo que eu passe esta última semana sozinha, porque me adapatar a uma pessoa nova e não-tão-legal (o que é absolutamente provável) vai ser uma tarefa, se não muito, muito difícil, absolutamente impossível.

Te desejo sorte, Katija! Que você consiga (e eu tenho um forte pressentimento que você vai) encontrar um manuscrito èpicamente valioso e importante que vai resolver todos os seus problemas e salvar sua vida e chutar o traseiro de todos aqueles que disseram “baaah, essa pesquisa nem é tão importante”.

Que minha nova roomate seja tão legal quanto você e que sua nova roomate seja tão legal quanto eu. Que você tenha aprendido comigo pelo menos metade do que aprendi contigo e que a gente se encontre num verão livre de trabalhos, intercâmbios, estágios e bolsas de pesquisa pra explorar a Romênia e a Transilvânia e a Wallachia e a Hungria e todos aqueles lugares bonitos que você me falou! Que você possa ir ao Brasil muito em breve passar umas boas férias na praia comendo toneladas de caranguejo, sururu e peixe fresco, experimentando Mariscada, Moqueca e Bobó, comendo pitanga, araçá e umbu e que todos, TODOS os seus sonhos se tornem realidade assim, que nem Mágica.

E QUE VOCÊ SEJA MUITO FELIZ!!!

Te amo de montão e, tenha isto em mente, foi uma das melhores coisas que me aconteceram nesta viagem.

Estou meio triste que você tá indo embora, claro. Mas tô feliz PRA CARALHO que você está seguindo seu caminho e sendo feliz, acima de tudo.

And remember your assignment:

KICK SOME ASS!

\o/

;****

Lu v ya!

* Adendo lingüístico: Buzu ou busu? Busão ou buzão? Gosto de “buzu” e “busão”, mas além de serem incompatíveis, a semântica me diz que “busu” é mais apropriado. Mas eu não gosto, prefiro “buzu”, então foda-se. Uma coisa é certa: “buzú” é que não é, “busú” tampouco. Certo?

Ai. Não sei. Fiquei confusa, agora…

Escrito Sexta-Feira, 17/02.

A Húngara foi embora sábado de noite e eu sinto muita saudade dela, mas confesso que estou adorando ter o quarto só pra mim. xD

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3 comentários em “A Húngara

    1. AHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAHAH DOIS ANOS E MEIO DEPOIS…!
      Só agora vi esse comentário e quase morro… ehuheuahuhauheuauea

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