Arsênio · Cianureto de Potássio · SIC TRANSIT

Libertas Quæ Sera Tamen

Quando as pessoas me perguntam “mas como você consegue viajar tanto?!? Você é rica, né?!?” eu fico sentindo o peso da ironia dessas palavras pairando no ar. Sinto a densidade da inveja de uns tantos – seja ela branca ou negra.

Inveja branca é aquela que eu sentia uns anos atrás, quando eu não trabalhava nem tinha mesada, quando eu via minhas coleguinhas indo pra Disney e pensava “Poxa, eu queria ir também… Aliás, nos meus quinze anos eu queria era um cruzeiro nas ilhas gregas, um safári fotográfico na África…. Ah, se eu queria!”

Só pra cargo de definição, inveja negra é aquela que pensa assim: “TOMARA QUE O AVIÃO DESSA VACA CAIA! Ela não merece, quem merece sou eu!” mas que, até na menção, é uma energia muito pesada e desagradável, a qual não quero nem mencionar muito mais a fundo aqui. Não é legal e pronto, então deixemos pra lá.

Quando eu tinha meus dezoito ou vinte anos, eu acompanhava o fotolog da Ruiva, amiga da Manzoro, e aquela pirralhinha sapequinha resolveu fazer uma sapequice que mudou minha vida: ela foi na rodoviária, comprou uma passagem de busão e se picou de Santa Maria, no cu do Rio Grande do Sul e foi até São Paulo ver o show do Judas Priest com o Whitesnake. Ela tinha uns quinze ou dezesseis anos na época e essa sandice transviada (aos olhos de uns) me foi uma inspiração suprema, assim, pra toda a vida.

Acho que ela nunca soube nem vai saber o quanto ela mudou minha vida com aquela atitude que, vamo lá, não dizia respeito a mais nada nem ninguém: ela foi ser feliz vendo a porra do show dela.

…Só que do lado de cá do pc, eu era daquelas que ficava “aaaaai, mimimi, vai ter show do Whitesnake e Judas Priest e eu nunca vou assistir porque eu moro longe e minha mãe não deixa e nunseiquê, mimimi, minha vida é triste e eu estou presa aqui, blablabla”.

Perdi o show.

Perdi vários shows.

Perdi por causa de minha mãe? Perdi porque não tinha grana?

Não. Não mesmo.

Perdi porque eu sou otária. Otária e cagalhona.

Perdi porque fiquei, por anos e anos, na minha maldita zona de conforto me lamentando por problemas que eu mesma criava.

E ver a Ruiva, bem mais nova que eu, catar as trouxas e se mandar e ser feliz por aquele fim de semana me inspirou pra vida toda. É a tal da inveja branca, sabe? Mas é quando a inveja branca deixa de ser inveja e vira inspiração. “Se ela pode, por que eu não posso?”

Ou, mais ainda, “se ela pode, eu também posso, ora meça!”. E é aí que começa a tal da atitude.

Olha, nem de longe eu vou ter a quantidade de colhões que aquela menina tem, não mesmo. E nunca mais tive notícia dela, desde que ela matou blog, fotolog, orkut, o escambau. Mas eu virei fã, pra vida inteira, por uma questão simples de inspiração.

A Ruiva não sabe, mas muito do que eu conquistei e vivi até hoje, eu devo a ela. E ao simples fato de ela ter ido ver o show do Judas Priest + Whitesnake.

Outro que me inspirou muito foi Pixel, mas isso eu acho que ele sabe.

Eu me sentia agoniada, incomodada, presa e amarrada nas minhas raízes soteropolitanas e ele era aquele espírito livre e cheio de asa.

Belo dia eu perguntei a ele “como faz?” e ele me respondeu “você vai, ué”.

Você vai, ué.

É só ir.

…E não é que é verdade?

Ale Noya foi quem me deu meu primeiro empurrão de verdade. Ele me mostrou quanto é mais barato do que parece. Foi com ele que descobri as passagens de R$25 e as delícias de estar num lugar novo.

Com o tempo descobri também que ficar na casa dos outros não compensa a liberdade do hostel, a não ser que os outros sejam muito, muito bróderes e sua intenção seja, primordialmente, visitá-los.

Descobri que compensa dormir três noites no trem, se for o caso, só pela sensação de liberdade do vento na sua cara, de ir e vir quando quiser e bem entender. Descobri que pressa é inimiga da perfeição e do viajante e que se seu companheiro de viagem não estiver exatamente no mesmo humor que você, é melhor estar sozinho. Descobri que depender dos outros te tolhe e não te permite aproveitar metade do que você aproveitaria. Que pessoas censuram o tempo todo, que reclamam, que acham que tá tudo errado.

Viajantes devem viajar com viajantes. Mochileiros devem viajar com mochileiros. Turistas devem viajar com turistas. Indivíduos devem viajar sozinhos.

Descobri que compromissos atrapalham as viagens e intercâmbios custam mais caro que viagens solo.

Descobri que se você não se encaixa no seu lar, você não vai se encaixar em lugar nenhum.

Descobri que seus amigos e sua família são aqueles que você leva no peito e que muita gente finge se importar, mas no fundo não se importa. Descobri que essas pessoas também não são importantes.

Descobri que iPhone não é importante, que fogão não é importante, que internet de mil megas não é importante.

Descobri que eu não preciso de Dolce e Gabbana nem de Gucci nem de Dior. Nunca precisei.

Descobri que Valentinos de segunda mão são mais que suficientes e continuam sendo Valentinos mesmo depois que seus gatos o usaram pra escalar até a prateleira mais alta. Descobri também que a etiqueta não serve pra nada e que os olhares vão ser os mesmos – ou até menos atenciosos – que aquele vestido comprado no balaio do Extra.

Descobri que esses olhares também não significam absolutamente nada e não enchem a alma de ninguém. E que os melhores momentos e as relações mais honestas são aquelas que acontecem quando você tá descabelada e de camiseta meio fedida com um chinelo três vezes maior do que seu pé.

Descobri que gente é tudo igual, não importa onde! E que o Brasil é um país abençoado.

Descobri que a maioria dos brasileiros não merece o país que vive e que a maioria dos romenos também não merece o país que vive. Descobri que os terráqueos, em grande maioria, não merecem este planeta e não sabem, nem de longe, aproveitá-lo.

Descobri que seres humanos são hipócritas por natureza e, em geral, aqueles que mais falam são os que menos fazem.

Descobri que os discursos são repetitivos e repetidos e que a gente tem essa mania de se lamentar por tudo sem fazer nada de diferente.

É confortável ficar na zona de conforto.

É confortável se lamentar da zona de conforto.

Minha missão de vida, a cada dia, é não repetir aquela minha conduta de “merda, nunca vou ver o Whitesnake!”. Minha meta, a cada dia, é não imitar mas mimetizar a Ruiva e quebrar mais essa matriz, mais esta borda, mais esta fronteira auto-imposta.

É perceber que eu não estou feliz assim e que isto aqui, agora, não serve pra mim.

É lembrar que a vida é curta demais e que eu não devo nada a ninguém além de mim mesma e que conseqüências sempre haverão, mas que quem vai arcar com elas sou eu e mais ninguém.

Que a vida é minha e que eu sou o centro do meu mundo e que é melhor estar feliz e satisfeita comigo mesma do que miserável, triste e devastada porque eu preciso provar a alguém que sou mais forte que isso.

Bobagem!

Bobagem sem tamanho.

Guardarei minhas forças para as batalhas reais! Lutarei por reinos que acredito e que defendo. Não defenderei uma nobreza que quer algo diferente do que considero bonito.

Fodam-se as politicagens dos humanos, de verdade.

Este texto é, mais que tudo, um manifesto de liberdade de mim contra eu mesma. De mim a meu próprio favor. Da liberdade. Da lei de Thelema. Da MINHA lei.

E, honestamente, não me importo muito se estas palavras serão entendidas ou digeridas por quem quer que as leia.

Gostaria que minha mãe entendesse, mas isto eu acho que ela entende. Ah, se entende! Entende o que quero dizer.

Mas também não é mandatório. Eu entendo, isto só já me basta. 🙂

Eu sou livre. Basta eu querer.

E, nossa…! Como eu quero.

Anúncios

5 comentários em “Libertas Quæ Sera Tamen

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s