Absinto · Cianureto de Potássio

Eu não gosto.

Minha mãe é meio machista. Meio, não. Bem machista. Mas, tadinha, nem é muito culpa dela!

Ela sempre foi uma moça vanguardista, lutou contra a ditadura, sustentou dois filhos sozinha, fez tudo direitinho como manda o figurino do Manifesto Feminista. Mas é machista. Isto, eu sei! E eu tenho cá pra mim, que esse machismo dela é bem maior do que ela mesma é capaz de perceber. Está tão entranhado na cultura da gente, que virou natural. É um machismo quase ignorante. E quase hipócrita, também.

Muito embora sempre tenha sido partidária do “mulher não precisa de homem pra viver”, quando surgiu o assunto “mesada” nas conversas de casa, o argumento dela pra meu irmão receber mais do que eu era por ser homem e mais velho. Olha, eu toleraria numa boa receber menos dinheiro que meu irmão. Porque ele é mais velho, porque tem mais necessidades, porque as notas eram melhores. Por ser mais bonito e o filho preferido, até isso eu toparia. Se minha mãe tivesse me dito um “porque eu gosto mais dele”, teria doído menos.

E me doeu, porque aquilo ia contra tudo o que ela tinha me ensinado na vida. Me doeu, porque vi em minha mãe uma falha de caráter imperdoável diante de todo o discurso que ela sempre pregou. Que tal discurso era uma fraude. “Porque ele é homem.”, ouvi da mesma mãe que me ensinou a nunca deixar um homem pagar a conta inteira. A ponto de ser um tanto indelicada, de não saber aceitar gentilezas. Deu trabalho pra entender isto, que esse conceito todo de feminismo é distorcido.

Ao mesmo tempo em que ela sempre me ensinou a ser quem eu quisesse ser e sempre tenha mantido um diálogo aberto sobre todas as coisas, no dia em que brinquei a testei dizendo que era lésbica, ela reagiu com desdém e disse que do jeito que eu era “pra frentex”, ela não duvidaria. Os anos foram passando, mas estas coisas nunca saíram de minha cabeça. Como uma mãe que falava tão abertamente sobre sexualidade poderia valorizar tanto um cabaço daquela maneira? Como minha mãe, tão de vanguarda, tão comunista, tão sincretizada… Poderia pregar tantos valores Cristãos sem fundamento?

Um belo dia, estava acendendo uma vela pro meu falecido pai e ela disse que “vela pra morto, não se acende dentro de casa”. E disse também que, ao acendê-la, tinha que dizer pra quem era em voz alta, sob o risco de outra alma penada vir e roubar a vela pra si. Fiquei pensando naquilo, mas respondi de pronto: meu Deus jamais permitiria uma coisa dessas!

Metade porque, se a vela é sagrada e é uma homenagem a um antepassado, ela deveria ser acesa em meu templo. E meu templo é meu lar. Meu corpo. Tudo aquilo que faz parte de mim. A vela, antes de ser “para um morto”, era para meu Pai. O Pai Terreno, que sempre tomou conta de mim e que sei que sempre tomará, onde quer que ele esteja. Pro mesmo pai que me deixou este apartamento, este templo. Que tanto em vida batalhou para deixar esta segurança pra mim.

De outro lado, meu pai sempre foi meio anarco-comunista. Assim como minha mãe, meu pai também tinha “coração de jardim zoológico” e era capaz de tirar as próprias calças pra vestir alguém que estivesse precisando mais do que ele. Minha mãe também, sempre foi assim. Não conseguia compreender como qualquer um deles poderia ser egoísta a ponto de não dividir um pouco de luz, a chama de uma vela, com algum espírito perdido nas trevas que precisasse um pouco mais do que eles.

E que porra de crença é essa, onde devemos temer os mortos, onde pessoas roubam a luz de outras, onde…..? Não. Nada daquilo fazia sentido pra mim.

Os anos foram passando e tantas pequenas hipocrisias foram me levando a um entendimento maior do todo e do que é bom de verdade. Porque, veja bem, muito embora minha mãe tivesse tudo isso entranhado dentro de si, por outro lado ela sempre escutou meu ponto de vista e, até hoje, discutimos qualquer tema que seja e não tenho qualquer hesitação em contestá-la quando discordo do que está dizendo.

E aí entendi o quão maravilhosa e bela é minha mãe. Porque, por mais que não quisesse ter filhos homossexuais, sei que a reação dela seria algo como “fazer o quê?” e nos amaria, respeitaria e aconselharia da mesma maneira. Porque por mais sexista que ela possa parecer, uma coisa que minha mãe nunca foi é ditadora. Por mais Cristã que seja sua moral e que a pregue quase que por reflexo, por outro lado ela sempre nos permitiu.

Claro que discordaremos! Sempre. E tenho a honra de poder dizê-la abertamente que discordo, discutir a questão e sei que meu ponto de vista será levado em consideração e respeitado, mesmo que ela discorde. Não é nisto que está a beleza das coisas?

Eu não gosto de padre. Não gosto de madre, de frade, nem de bispo nem de frei. Minha mãe, no fundo no fundo, acho que também não gosta. Mas ela teve educação Cristã e sempre diz “que heresia!” quando eu falo uma “asneira” dessas. Repete o que meu avô dizia, que “homem que não crê em Deus é ateu, mulher que não crê em Deus é à toa” e pode até concordar. Mas aí é que tá: ela respeita.

Se um belo dia eu chegar pra ela e dizer “mãe, virei puta”, ela pode até ficar meio desgostosa no começo, reclamar um bocado e perguntar se é isto mesmo que quero fazer de minha vida. Mas carrego em meu coração a certeza (e milhares de provas!) que, se eu disser pra ela com Verdade que aquela é, sim, minha escolha, ela será a primeira a me levar numa loja de lingeries e me comprar cintas-ligas novas.

Minha mãe é dessas que fala “Deus me livre um filho viado!”, mas se meu irmão resolvesse largar tudo e virar travesti, ela ia ser a primeira a bater na porta do Congresso e mandar o SUS bancar a operação. Hipotecava a casa, mas não deixaria o filho dela sem análise nem com piroca, se essa fosse a escolha dele.

Eu sei disso, porque ela é Mãe. Mãe, Mãe mesmo, daquelas de tirar o chapéu e encher o peito de orgulho na hora de falar. Mãe que “vestiu a camisa do time dos filhos”, como minha tia sempre disse. E é verdade.

E é a mesma Verdade que guiava meu pai, que sempre foi muito esclarecido mas tinha umas provincianices que deus me livre! “Filha minha tem que ser mulherão! Muherzinha, não serve.”

Hoje eu entendo. Entendo que eles queriam o melhor pra mim e aquilo ali foi o que eles aprenderam que, na teoria, era o melhor. Ainda assim, por mais contradizentes que sejam algumas das minhas escolhas, sei que posso contar com o apoio e, ao menos, uma tentativa honesta de compreensão daqueles que me criaram.

Um belo dia, estava num restaurante e soltei um arroto enorme. Meu pai censurou imediatamente e disse “que coisa feia!”. Aí parou, pensou um pouco e completou: “Mas é isso mesmo. Tem que botar pra fora. É por isso que tem tanta mulher com prisão de ventre…”

Graças a eles, eu sei que o importante é ser honesta comigo mesma. E que, por pior que tudo pareça agora, no final vai ficar tudo bem. Eu não gosto de padre, de madre nem de frei. Não gosto de bispo, não me importo com Cristo. Mas, pra meus pais, eu digo AMÉM.

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