Arsênio · Cianureto de Potássio

Sobre depressão e cobrança.

Metade de mim tem vontade de fazer as coisas, metade tem uma vontade constante de tacar o foda-se.
Tem uma ansiedade que me consome e me previne de fazer as coisas, ela me engole, ela diz que nada, nunca vai dar certo.

É muito difícil viver um passo de cada vez. Existem milhares de pequenas questões e angústias e cada uma delas nos leva a toda uma gama de questões existenciais.
Um dead pixel no meu Kindle é suficiente pra que eu comece a me sentir afogada e engolida por todas as frustrações da minha existência, pra qual eu vivo tentando achar um sentido e me angustiando ou simplesmente parando de questionar.

Eu tenho medo de sair de casa. Eu me sinto desconfortável e tenho a sensação de estar sendo julgada o tempo todo, por todas as pessoas. Encosto pra conversar com elas e é exatamente o que todos estão fazendo: julgando uns aos outros.
E julgando, na grande maioria das vezes, por coisas que nem em um âmbito muito remoto e subjetivo têm influência nas vidas dos respectivos juízes em questão.

Eu só queria viver em paz, em algum lugar tranqüilo, sem ter que me preocupar com coisas absurdas, como o porquê das pessoas serem tão agressivas, violentas e enxeridas nas vidas umas das outras.
É uma doença da espécie ou da sociedade?
…É só medo?

Eu tenho mil teorias sobre o que causa esse frenetismo das pessoas, mas nenhuma delas jamais conseguiria justificar as merdas que as pessoas fazem. Elas explodem bombas. Elas ateam fogo. Elas agridem estranhos na rua porque não concordam com quem aquele estranho se relaciona. É bizarro. Medonho. Surreal.

Eu realmente não entendo que espécie de funcionamento tem um cérebro de uma pessoa que quer proibir os outros de algo que não gosta (?) pra si “porque não pode e pronto”. A meu ver, é simplesmente absurdo.

Mas o que eu, heterossexual, não-negra, não-ruiva, classe média… O que uma pessoa como eu sabe ou pode falar sobre preconceito?
Honestamente, assim como qualquer outro indivíduo, eu posso falar pela minha própria experiência. E minha experiência me mostrou, ao longo dos 31 anos da minha existência até agora, que TODAS as pessoas sofrem MUITO preconceito e contra TUDO.

Porque se meu cabelo era longo, eu deveria deixá-lo solto e se o deixasse solto, tinha que deixá-lo liso também. Porque minhas sobrancelhas precisavam ser feitas, mas não poderiam ser muito finas, porque não fica muito natural. Eu poderia pintar os cabelos, mas desde que fosse de castanho, e eu devia esperar meus cabelos brancos pra começar a pintá-los. Porque artista não é profissão. Porque “mágico” não é carreira. Porque lidar com crianças é um trabalho que requer anos de treinamento, aprendizado e investimento, mas qualquer Artista vale menos que o mais mequetrefe operador de telemarketing. Porque tatuagem é coisa de vagabundo. Porque se tem tatuagem, tem que ser colorida. Porque pode ter tatuagem, mas não pode fazer estrela nem símbolo de infinito.
Não pode mulher careca. Não pode sotaque baiano. Não pode misturar o sotaque. Não pode usar pochete. Não pode usar mochila. Não pode usar coturno. Não pode usar sandália. Não pode ter mais dinheiro que os outros. Não pode ter menos dinheiro que os outros. Não pode viajar. Não pode ficar em casa. Não pode trabalhar e estudar. Não pode só estudar. Não pode só trabalhar. Não pode pegar ônibus, mas também não pode ir a pé, não pode ir de Uber, não pode ir de metrô. Não pode fumar maconha. Não pode dormir até tarde. Não pode ficar sem dormir. Não pode comer demais. Precisa comer na hora certa. Tem que dormir na hora certa também. Não pode ficar sem comer. Não pode priorizar os bichos. Não pode ter bicho e não dar prioridade.
Tem conta pra pagar e milhares de questões a resolver e, pra cada uma delas, tem um arsenal gigantesco de opiniões tão taxativas quanto tolhedoras, definitivas e inegociáveis, que chegam apenas a um consenso: TÁ ERRADO.

É muito difícil não entrar em depressão. Porque tá errado ser preto, mas tá errado ser branco também e se você não for nenhuma das duas coisas, você tá mais errado ainda.
Tá errado ser diferente na mesma proporção que tá errado ser igual.

Eu fico nesse tiroteio de cegos tentando achar um abrigo, sobreviver e seguir caminhando apesar de toda essa loucura, encontrar alguma coisa que me faça sentido em todo esse caos coreografado que as pessoas criaram.
As pessoas.
Eu odeio as pessoas.

Eu odeio veementemente o fato de todas as pessoas “saberem” da minha vida mais que eu.
Me sinto irritada e ofendida em ver o quanto todo mundo está disposto a opinar e dar sermão, mas sem oferecer nenhum apoio prático, nenhuma saída objetiva.
Elas se metem nos seus problemas na mesma proporção que esperam que você cuide dos problemas delas e, no fim das contas, vejo um grandessíssimo ciclo vicioso de pessoas descontando estresses e frustrações em outras, à medida que a coisa vai saindo de controle e todos ficam cada vez mais estressados e sem resolver efetivamente problema algum.

O mundo é ambicioso e anseia pela Terceira Guerra Mundial. Pessoas que irão lucrar com isso. Grupos, não indivíduos. Grupos de indivíduos que, arrisco, antes de olhar pra si e descobrirem o que queriam de Verdade, cederam ao clamor da turba que dizia que dinheiro e lucro era a melhor coisa que poderia existir. E, cegos pela ganância, atropelam e massacram qualquer coisa que se ponha na frente: Uma flor. Um fiorde. Centenas de nações.

A guerra já está orquestrada e os sinais são óbvios. A novela da Globo segue, e eu não faço a menor idéia de quem são os personagens ou qual a trama – não que eu ache que tenha mudado de vinte anos pra cá. A vida continua sofrida e eu sigo pagando por coisas que não quero, não preciso e não gostaria de pagar.

Por mim, verdade seja dita, eu seria feliz (e já fui, mais de uma vez) tendo uma casa limpa, meus bichos por perto, água fresca, boa música, comida o bastante e maconha à vontade pra fumar.
Veja bem, eu não tenho grandes aspirações. Mas até o mais simples dos projetos de vida tem milhares de complicações e impossibilidades, tem mil compromissos…

…E, no fim das contas, só tem um motivo REAL pra não acontecer: eu devo satisfação a outras pessoas.
Porque até pra ser um ermitão, filosofando e fumando maconha o dia inteiro no topo duma montanha, precisa-se no mínimo de um diploma e um câncer.
Ou fundar uma religião, que dá praticamente na mesma.

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